“Palhaços d’Opital”: a missão de levar sorrisos e cuidado a adultos e seniores nos hospitais

O cuidado emocional dos adultos, sobretudo dos mais velhos, era um espaço quase inexistente nos hospitais portugueses quando, em 2013, Isabel Rosado e Jorge Rosado decidiram criar os Palhaços d’Opital. Da vontade de Isabel e do sonho de Jorge em tornar-se “Palhaço d’Opital” nasceu uma iniciativa pioneira em Portugal e na Europa, desenhada de raiz para trabalhar exclusivamente com adultos e seniores em contexto hospitalar.

Os primeiros números que encontraram revelavam uma realidade incómoda: o abandono hospitalar era frequente entre a população mais velha, com casos de familiares que deixavam números falsos para evitar serem contactados no momento da alta. Durante festas e férias, esse fenómeno tornava-se ainda mais evidente.

A isto somavam-se os chamados “internamentos sociais”: pessoas com alta clínica que permaneciam no hospital por falta de respostas sociais adequadas. Os relatórios recentes confirmam a dimensão do problema: foram identificados mais de 2.300 casos e verificou-se um aumento de cerca de 8% de camas ocupadas por internamentos sociais num único ano – um retrato que pressiona o SNS e expõe fragilidades da rede de cuidados continuados e residenciais.

Foi perante este cenário que Isabel e Jorge chegaram à conclusão de que “no hospital, os grandes números não são as crianças. A pediatria não conhece abandono. A geriatria, sim.” E a forma como a sociedade olha para estas duas faixas etárias é radicalmente distinta.

A Palhaços d’Opital nasceu para contrariar esse desequilíbrio e para entrar nos corredores onde se acumulam solidão, silêncio e longas horas de espera. Doze anos depois, cada visita confirma que a urgência continua a ser a mesma e talvez até se tenha intensificado. 

Para Isabel Rosado, CEO e fundadora da Palhaços d´Opital, este é o público mais especial de todos: “pelas histórias gravadas em cada ruga, pelos ensinamentos de vida, pelo carinho que dão sem esperar nada em troca, pela capacidade inigualável de amar”, partilha.

Mas é também um público desafiante, não pela sua essência, mas pela forma como a sociedade encara a velhice. “Todos queremos viver mais tempo, mas ninguém quer ser velho. E esquecemo-nos muitas vezes que estas características são indissociáveis. Sempre que falamos do público mais velho, falamos do futuro de cada um de nós”, sublinha.

O que acontece quando um Palhaço entra no hospital

Da porta do hospital para dentro, os profissionais da Palhaços d’Opital levam alegria, afeto e boa disposição aos utentes, mas também aos cuidadores, familiares e profissionais de saúde. “Criamos pequenos espetáculos que podem acontecer num quarto, numa sala de espera ou mesmo num corredor”, descreve Isabel Rosado.

A escolha da personagem do Palhaço, acrescenta, deve-se à sua associação imediata à “leveza, ao humor e à capacidade de desarmar quase qualquer ambiente”. Cada visita é preparada ao detalhe, do figurino à escolha música, e começa sempre com uma reunião com o enfermeiro responsável. “Não é para questões médicas, mas para perceber o estado anímico, limitações sensoriais ou cognitivas e adaptar a intervenção ao público daquele espaço”, nota.

Os Palhaços d’Opital atuam em serviços particularmente desafiantes, como oncologia, demência, cuidados paliativos e cuidados terminais. Nestes contextos, a presença inicial é muitas vezes recebida com reserva: “Estes doentes já carregam consigo o peso da doença. Muitas vezes há desconfiança: a maior parte não parece acreditar que estamos aqui por eles”, descreve Isabel.

É por isso que cada momento de aproximação se torna tão especial. “Muitas vezes, pessoas fechadas em si e na sua doença, começam a ouvir a música, a cantar, a dançar ou simplesmente a sentir-se envolvidas pelo afeto. Nesse momento, já cumprimos a nossa missão”, acrescenta. E mesmo nos quartos mais silenciosos, junto aos doentes mais frágeis, Isabel sublinha algo que se repete: “É muito raro sairmos sem um sorriso.”

Quanto ao impacto, a diretora do projeto resume com clareza: “O que pretendemos é contribuir para a alteração do estado anímico dos doentes, deixando-os mais alegres e comunicativos.” E descreve o que fica depois da visita: “Em cada quarto, sala de espera ou sala de tratamento, acabamos por criar uma memória coletiva que não é sobre doença, mas sobre alegria e boa disposição. Essa memória perdura: os pacientes, familiares e profissionais lembram-se e falam sobre estes momentos muito tempo depois da visita.”

A arte e o rigor por trás do nariz vermelho

A formação para se tornar um Palhaço d’Opital é exigente e rigorosa. “A nossa equipa é formada por artistas profissionais, com experiência em teatro, música e na área de Doutor Palhaço, e recebe formação específica para atuar em ambiente hospitalar”, destaca Isabel Rosado. No total, cada membro cumpre mais de 250 horas de formação por ano.

O percurso começa antes de vestir o nariz vermelho: análise de currículo, entrevista presencial e casting artístico. Só depois é que os candidatos entram numa formação intensiva de 21 horas. A partir daí, inicia-se um percurso progressivo: doze observações em contexto hospitalar, sete semanas de formação musical com toda a equipa e a construção da personagem, sempre acompanhados pelos palhaços mais experientes.

Só depois desse caminho chegam as primeiras visitas, sempre feitas em dupla e lado a lado com um Palhaço sénior. Nada é improvisado: “As nossas dinâmicas são pensadas, estruturadas, testadas e ensaiadas; podem levar de três a seis meses até serem apresentadas em contexto hospitalar”, salienta Isabel. Todo o trabalho é desenvolvido em articulação com os profissionais de saúde, para garantir que cada intervenção respeita e se integra na rotina do hospital.

Atualmente, a equipa conta com 12 Palhaços d’Opital , número que deverá aumentar para 15 em janeiro de 2026.

Sorrisos, dor e esperança

Equilibrar alegria e tristeza em contexto hospitalar é um desafio constante. Cada visita começa com um gesto simples, mas importante: bater à porta e pedir licença para entrar. “Se pensarmos bem, este é um gesto que não é comum nos hospitais, e ao fazê-lo estamos a devolver autonomia a cada doente, permitindo que decidam se querem ou não deixar-nos entrar”, partilha Isabel.

Antes de atravessar a porta, a equipa já conhece o nome e a idade de cada pessoa, mas pergunta sempre: “Como gostaria que o tratássemos?” É nesse instante que percebem o ambiente do quarto e ajustam a energia que vão levar consigo, sempre com o objetivo de aproximar o doente do seu próprio estado de alegria. “Há situações em que percebemos que a nossa intervenção é mais poderosa se estivermos um bocadinho menos como Palhaço e um bocadinho mais como seres humanos”, confessa.

A evidência recolhida reforça o que se testemunha todos os dias. Dados de 2024, reunidos nos dez hospitais parceiros, mostram que 80% dos profissionais de saúde referem melhoria do ambiente de trabalho e das relações com os doentes; 75% dos familiares notam maior comunicação e vitalidade dos seus entes queridos após as visitas; e avaliações internas registam redução de ansiedade e tristeza entre os pacientes.

Nas redes sociais, multiplicam-se os testemunhos. Uma filha que escreveu: “O meu irmão ligou-me a perguntar se tinham alterado a medicação ao nosso pai, porque agora ele só fala em voltar ao hospital, porque estão lá os palhaços e quer ir cantar com eles.”

Durante as visitas, muitos recordam idas ao teatro ou ao circo, canções da juventude, poemas, receitas antigas ou episódios da vida quando eram mais novos. Por vezes, até os figurinos despertam lembranças: “Falavam-nos de como tiveram peças de roupa parecidas”, relembra Isabel. Risos, músicas e histórias criam pequenas ilhas de alegria, capazes de interromper a narrativa da doença, por minutos e, às vezes, por dias.

“Rir é o melhor remédio”, acredita Isabel. “E faz tão bem a quem o provoca como a quem ri. O riso não é um ato solitário, é contagiante.” 

Entre os episódios mais marcantes, Isabel recorda uma senhora a quem deu um beijinho na face. A mulher olhou-a, emocionada, e perguntou: “A menina não tem nojo de me dar um beijo?” Isabel nunca esqueceu o momento: “Senti-me muito mal por pertencer a uma sociedade em que os nossos pais e avós não se sentem merecedores de carinho”.

Outra memória inesquecível aconteceu no Hospital de Viseu, com três seniores internados por tentativa de suicídio. No final da intervenção, um deles surpreendeu a equipa: “Ó mulher, traz-me lá o cavaquinho, que eu até já me tinha esquecido de quanto gosto de cantar!”

O contacto diário com os seniores revela que a forma como encaramos os desafios é tão importante quanto os próprios desafios. “Já encontrámos pessoas com quase 100 anos, com histórias duríssimas, mas com uma energia linda, a sorrir e a lutar para permanecer aqui, e pessoas mais jovens, com situações de menor complexidade, mas que estão completamente entregues à doença… Passa muito pela maneira como encaramos o que a vida nos traz”, conclui Isabel.

Investir na humanização hospitalar

Apesar do impacto das visitas, Isabel Rosado acredita que ainda há um longo caminho a percorrer em Portugal para reconhecer e valorizar intervenções artísticas e humanas nos hospitais. “A arte é uma mais-valia: não vamos substituir os profissionais de saúde, mas vamos ser um suporte à sua intervenção”, afirma.

Sobre o papel do Estado e do sistema de saúde, Isabel defende a necessidade de melhorar as condições dos seniores e criar programas de apoio conduzidos por profissionais qualificados. “Gostaríamos muito que fosse implantado em Portugal o modelo nórdico, em que cerca de 50% do custo destas intervenções é financiado pelo Estado. Se se confirma que há um impacto significativo no estado anímico das pessoas, uma melhoria da saúde mental de doentes e profissionais, e um ambiente hospitalar mais humanizado, então o desafio é avaliar o retorno financeiro e reconhecer a importância de apoiar este tipo de trabalho”, conclui.

O diretor artístico da Palhaços d’Opital, Jorge Rosado, resume o sentimento da equipa: “Ser Palhaço d’Opital é a mais bela profissão do mundo.” Isabel completa: “É isso que sentimos diariamente: o que recebemos é infinitamente mais do que damos.”

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