A recente integração do Plano Nacional de Leitura (PNL) e da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) no Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação marca um novo capítulo na política pública de promoção da leitura em Portugal. O objetivo é concentrar esforços para melhorar a literacia e a qualidade educativa, mas a mudança levanta questões sobre o futuro da identidade e da autonomia do PNL.
Em entrevista ao Ensaio, Noémia Jorge, Professora Adjunta Convidada na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, admitiu ter ficado surpreendida com a notícia e destacou a relevância do programa. Segundo a docente, o PNL “vai muito além de um simples sistema de catalogação de livros ou de um selo de qualidade que encontramos nas capas dos livros”: promove hábitos de leitura entre os mais jovens, contribui para o desenvolvimento da literacia da população em geral, incentiva a partilha de boas práticas pedagógicas em sala de aula e dissemina investigação sobre a leitura.
A professora sublinhou ainda o papel central da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE)na inclusão e interdisciplinaridade dos alunos. “É com o apoio das bibliotecas escolares e dos professores bibliotecários que se esbatem assimetrias sociais e se desenvolvem projetos interdisciplinares”, explicou, destacando a importância da colaboração entre os programas.
Sobre os impactos da integração, Noémia Jorge mostrou-se cautelosa. “Não sabemos ainda como vai funcionar a integração, mas existe o risco de perder autonomia e identidade”, alertou. O programa tem objetivos claros, como promover planos de leitura, melhorar a competência leitora em todos os níveis de ensino e formar mediadores de leitura. Segundo a docente, a grande questão é se estas iniciativas poderão continuar a ser desenvolvidas após a mudança.
A importância do Plano Nacional de Leitura
O Plano Nacional de Leitura (PNL) desempenha um papel fundamental na promoção da leitura e no desenvolvimento da literacia em Portugal, atuando desde a infância até à idade adulta e apoiando educadores na formação de leitores e no incentivo a hábitos de leitura.
Para Noémia Jorge, mesmo a iniciativa mais simples, como as recomendações de livros disponíveis no catálogo online e o selo Ler+ nas capas, exercem grande influência na formação de leitores dos zero aos 18 anos. “Estas iniciativas, por si só, têm impacto não apenas nos jovens, mas também nas práticas de sala de aula, ao apoiarem as escolhas de textos apresentadas por educadores, professores e autores de manuais escolares”, afirma.
Mas o trabalho do PNL não se esgota nestes dois aspetos. “Basta explorarmos o site do PNL para nos darmos conta da existência dos Planos Locais de Leitura, implementados em colaboração com os municípios, dos incentivos à leitura em família ou em clubes de leitura, da promoção de concursos…”, enumera a docente.
O programa apoia também educadores e professores com formação e partilha de estratégias, dinâmicas e recursos que contribuem para o desenvolvimento de competências de leitura cada vez mais complexas. “Tudo isto alimenta a formação de leitores”, sublinha.
A professora destaca ainda que o Plano Nacional de Leitura tem um papel importante na criação de hábitos de leitura entre adultos. “No catálogo do PNL, há livros recomendados a leitores com mais de 18 anos, que abrangem diversos temas, géneros e níveis de dificuldade”, acrescenta, destacando a relevância da leitura ao longo da vida.
Desafios de literacia e perda de interesse pela leitura
Um estudo do CIES/Iscte-IUL revelou que um em cada quatro alunos do ensino básico e secundário tem menos de 20 livros em casa e que o interesse pela leitura diminui ao longo da escolaridade. Para Noémia Jorge, estes números refletem dois desafios principais.
“Por um lado, nem em todas as casas há hábitos de leitura ou de escrita, o que condiciona o interesse das crianças em aprender. Uma criança que vê a leitura e a escrita como parte do quotidiano dos adultos que a rodeiam aprenderá a ler mais facilmente do que outra que não observe esse exemplo”, explica. Segundo a professora, a falta de contacto com livros e práticas de leitura no ambiente familiar aumenta o risco de dificuldades na aprendizagem e de insucesso escolar.
O segundo desafio, destaca, surge depois de a criança já saber ler. “O interesse vai caindo ao longo da escolaridade, provavelmente pela obrigatoriedade de ler certas obras com as quais os jovens nem sempre se identificam e, eventualmente, por práticas de sala de aula que não valorizam o seu papel ativo de leitores”, afirma.
Na experiência da docente, essa tendência é evidente sobretudo a partir do 3.º ciclo. “Entra-se na adolescência e surgem outras solicitações mais atrativas. Ler exige mais concentração e disciplina do que interagir nas redes sociais e um papel mais ativo do que ver um filme ou uma série”, observa. Noémia Jorge considera que, quando as leituras obrigatórias e as interpretações instituídas não são acompanhadas de práticas pedagógicas inspiradoras, podem afastar ainda mais os jovens dos livros.
Estratégias para cultivar o gosto pela leitura
Para travar a perda de interesse pela leitura ao longo da escolaridade, Noémia Jorge considera que a palavra-chave é o exemplo. “Aos professores de Português cabe também ler, partilhar impressões de leitura e estimular os alunos a fazerem o mesmo, mesmo que, no início, não leiam mais do que “Diário de um Banana” ou Colleen Hoover”, afirma.
Na sua visão, é fundamental ampliar os horizontes de leitura e aproximar os alunos de obras e autores contemporâneos, “próximos da sua realidade”. “Textos desse tipo podem ser um degrau necessário para amadurecer gostos, aprender a apreciar os clássicos e, gradualmente, aceder ao capital cultural comum que é o património literário”, explica. Para a professora, alargar o cânone, apresentar novos autores e incentivar interpretações pessoais bem fundamentadas são passos decisivos para desenvolver a compreensão crítica e preservar o gosto pela leitura.
As bibliotecas escolares e os professores bibliotecários têm um papel essencial nesse sentido. “Não são um mero espaço físico onde antes apenas se lê em silêncio: são locais de encontro, partilha, interdisciplinaridade e inclusão”, destaca.
Projetos dinamizados pelos professores completam este esforço, envolvendo toda a comunidade escolar. “A representação de peças teatrais, a realização de saraus literários ou a divulgação de produtos digitais são exemplos de atividades que aproximam os jovens da leitura”, conclui.
PNL em debate: Desafios e propostas
Em setembro de 2024, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que o Plano Nacional de Leitura (PNL) está “datado” e sugeriu medidas como o cheque-livro. Sobre esta avaliação, Noémia Jorge concorda com a ideia do cheque-livro, embora considere que, “se o objetivo é formar leitores, os valores monetários em causa devam ser revistos”.
No entanto, a professora não acredita que o PNL esteja realmente “datado”. “Basta olharmos para o site do PNL para nos apercebermos das iniciativas e das novidades que vão sendo introduzidas gradualmente, ao longo dos anos, ajustadas aos desafios sociais que vão surgindo”, explica.
O Presidente também destacou a importância de dar mais visibilidade ao livro nos media, incluindo horários nobres na televisão. Noémia Jorge considera, porém, que, “no contexto atual, se se pretende que os livros e a leitura tenham mais visibilidade entre os jovens, a divulgação será mais eficaz se for feita nas redes sociais”. Ainda assim, lembra que estudos recentes, como o levado a cabo pela Universidade Católica, concluem que “os portugueses confiam mais nos amigos e na família do que nos influenciadores digitais para comprar livros”, reforçando o papel essencial da família na formação de leitores.
Quanto a possíveis atualizações no PNL, a docente sugere que uma medida essencial seria melhorar a experiência do site. “Talvez sugerisse a atualização do site do PNL: é riquíssimo, mas a navegação é pouco intuitiva, sobretudo para famílias”, aponta, destacando que ferramentas acessíveis são fundamentais para aumentar o impacto do programa junto das novas gerações.
O papel dos professores de Português na formação de leitores
Além das medidas e estratégias do PNL, a formação de leitores competentes depende também da atuação dos professores em sala de aula, que precisam de acompanhar a evolução da sociedade, lidar com a concorrência dos ecrãs e criar oportunidades para que os alunos desenvolvam habilidades de leitura sólidas e críticas.
Na opinião de Noémia Jorge, os professores de Português devem acompanhar estas mudanças sem nunca perder de vista a missão central de formar leitores competentes. “Se, como pais, damos brócolos e peixe cozido aos nossos filhos, mesmo sabendo que eles preferem bifes com batatas fritas, como professores de Português temos a responsabilidade de levar para a aula textos mais complexos, que exijam concentração, reflexão e tempo”, explica.
A responsabilidade dos professores insere-se num contexto mais amplo de valorização da leitura em Portugal, que depende não só do trabalho em sala de aula, mas também de estruturas e recursos institucionais que apoiem a formação de leitores.
Mesmo com a fusão com a RBE e a reintegração no novo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, Noémia Jorge sublinha que é essencial garantir que o Plano Nacional de Leitura mantém autonomia funcional e orgânica. “É também necessário que as bibliotecas escolares tenham condições para reforçar o seu catálogo, adquirindo livros atuais, assim como investir em equipamentos e recursos humanos”, acrescenta, destacando que estas medidas são fundamentais para assegurar a continuidade do programa e o desenvolvimento de leitores ao longo da vida.