“PLAYBACK”, Sérgio Graciano leva ao cinema a história de Carlos Paião: “O que foi mais surpreendente descobrir foi a profundidade do Carlos Paião em tudo o que ele fazia”

© Filipe Feio

A vida e a carreira de Carlos Paião chegam ao cinema com “PLAYBACK”, uma longa-metragem realizada por Sérgio Graciano que acompanha o percurso do compositor e intérprete português, desde os anos em que estudava Medicina até à afirmação de uma carreira na música.

O filme centra-se no período em que Carlos Paião conciliava a formação académica com a composição de canções, num momento de mudança no panorama da música portuguesa. Entre os estudos e a criação musical, o jovem compositor acaba por optar pela música e pelos palcos, dando início a um percurso que viria a marcar a cultura popular portuguesa.

A narrativa aborda também o processo criativo de Carlos Paião e o contexto em que surgiram algumas das canções que contribuíram para a sua popularidade. Humor, composição e relação com a indústria musical cruzam-se com episódios da sua vida pessoal, numa história que procura retratar o artista para além das canções que ficaram conhecidas do grande público.

Rafael Ferreira interpreta Carlos Paião e lidera um elenco que inclui Laura Dutra, Rita Durão, António Mortágua, Anabela Moreira e Albano Jerónimo, entre outros atores do cinema e da ficção nacional.

“PLAYBACK” recupera, assim, a trajetória de um compositor cuja carreira foi interrompida prematuramente, mas cuja obra permaneceu presente no imaginário musical português. O filme pretende também aproximar a história e as canções de Carlos Paião de novas gerações, revisitando uma das figuras mais reconhecidas da música portuguesa das décadas de 1970 e 1980.

 

De que forma foi feita a pesquisa para transformar a história de Carlos Paião num filme?  

A minha pesquisa cingiu-se essencialmente à viúva dele, a Zaida Cardoso, porque foi a história deles os dois que eu quis contar, que acho que era a menos conhecida de todas. O que me interessava era conhecer o Carlos, o que estava dentro da cabeça dele e passar cá para fora. Consegui chegar a ele por intermédio da Zaida, e construir o imaginário do Carlos na minha cabeça, como alguém super talentoso, feliz, amigo da família, bom pai e bom marido. Foi assim que este projeto foi desenvolvido. 

 

O que foi mais surpreendente descobrir sobre a história do Carlos Paião?  

O que foi mais surpreendente descobrir foi a profundidade do Carlos Paião em tudo o que ele fazia, especialmente nas letras dele, que pareciam simples e populares, mas no fundo tinham muita profundidade, melancolia e até alguma tristeza. Isso foi muito interessante, descobrir um Carlos Paião que penso que ninguém conhecia, esta figura que não era atormentado, mas ia para casa pensar qual era a rima perfeita. Imagina-se alguém que tem 300 músicas no espólio que ainda não foram publicadas. Eu imagino que esta cabeça não parasse em momento algum e daí ter feito este caminho no filme.  

 

Carlos Paião continua a ser uma figura muito acarinhada pelo povo português. Contar a sua história foi mais uma responsabilidade ou um privilégio? E porquê?  

Eu acho que é sempre um privilégio. Acho que muda um bocadinho quando estas pessoas estão mortas ou vivas. Quando estão mortas há uma liberdade diferente. O Carlos Paião morreu há 40 anos, apesar de haver especialistas no tema, eu acho que é uma coisa livre, é tirar uma licença poética. Claro que fui falando com a Zaida e percebi que portas é que ela me ia abrindo, fui entrando onde se podia entrar e construindo o filme com essa medida. Por isso, eu diria que foi um filme feito com muito orgulho e uma liberdade total para fazê-lo. 

 

Como encontrou o equilíbrio entre a fidelidade a figuras reais e a liberdade artística do filme?

Eu acho que há uma responsabilidade maior quando as personagens estão vivas. Neste caso a Zaida está viva e muda um bocadinho o jogo, há uma responsabilidade maior. Com o Carlos, não há uma liberdade que não respeite quem era o Carlos Paião. O Albano Jerónimo, que interpreta o Mário Martins, não representa só o Mário Martins, representa todo um setor audiovisual nos anos 80. Não é só uma personagem, são muitas personagens dentro daquela personagem.  

 

Que papel tiveram as músicas do Carlos Paião na construção da linguagem cinematográfica do filme? Podemos dizer que é a música que conta a história ou é a história que conduz a música?  

É as duas coisas. A música é absolutamente narrativa, apesar de ter este momento lúdico que serve o propósito do filme. Mas esta questão de o filme ser construído a partir das músicas também não foi uma ideia que eu tivesse tido à priori. Foi uma ideia que foi começando a amadurecer à medida que fui falando com a Zaida e ter necessidade de contar esta história desta cabeça do Carlos Paião. Eu diria que as músicas servem como narrativa do filme, mas também não sei dizer se o filme é um musical ou se é uma biografia. Por isso, este filme é uma mistura de uma série de coisas que eu gostava que as pessoas me esclarecessem depois de ver e dizer o que sentiram.  

 

Houve performances que foram recriadas para o filme. Como é que foi recuperar e adaptar estas canções para o cinema? Procuraram manter os arranjos originais das músicas dos anos 80 ou adaptá-las para um estilo mais moderno?  

A ideia da recriação das coreografias foi só a recriação do Playback que era a única que tinham feito no Festival da Canção. As outras são tudo por imaginação. As músicas foram feitas pelo The Legendary Tigerman (Paulo Furtado) que procurou um Paião de 2026, dando-lhe uma roupagem completamente diferente, um bocadinho mais pesada, com mais guitarras, com esta melancolia e até com alguma tristeza por trás desta aparência mais popular. O Paulo respeitou totalmente o artista, não deixando de assinar as músicas, porque ele manteve o romantismo do Carlos, mas também lhe deu o tom pesado da cabeça dele. Sem ter falado com ele, chegamos os dois à mesma conclusão nesta coisa da melancolia, e isso está no filme e também está nas músicas.  

 

Nas rodagens do filme houve alguma cena em particular que tenha sido mais difícil de gravar? 

Há um plano de sequência na discoteca, que é quando o Carlos está a tocar ao piano e a câmara está a andar à volta dele. O plano tinha seis ou sete minutos, havia muita coisa a acontecer, chuva a cair, pessoas que chegavam e dançavam, nuvens que baixavam, luz que mudava, era uma conjugação imensa. Lembro-me que eram duas cenas nesse dia e tentámos fazê-la de manhã e não conseguimos, tivemos de voltar à tarde para fazer. Essa cena foi especial.  

Este é um filme que se passa nos anos 80. Quais foram as escolhas visuais, o cenário, os figurinos, o design, a correção de cor que fizeram para conseguirem transportar os espectadores para os anos 80?  

O nosso imaginário cinematográfico leva-nos sempre para os Estados Unidos nos anos 80. E eu quis fugir um bocadinho a isso, tanto que a direção de fotografia às vezes tem uns momentos mais sombrios. Assim como a roupa, apesar de colorida, era uma coisa mais pastel e não era tão vibrante. Porque Portugal, no pós-25 de abril, não era assim tão vibrante, brilhante, colorido, era um país monocromático, acinzentado, a sair de uma ditadura de anos, onde as pessoas não falavam muito, estavam-se a descobrir. Vínhamos de músicas de intervenção para entrar nesta nova música pop dos anos 80. O país não era aquela memória romântica que toda a gente tem. Era um país a sair de uma ditadura pesada e isso não se resolve em 10 ou 15 anos. Daí a opção de fazer um filme não tão colorido assim. 

 

Carlos Paião é interpretado pelo ator Rafael Ferreira, que foi escolhido numa audição com outros atores. Que características procurava no ator para poder interpretar Carlos Paião?  

Na primeira fase do casting era só cantar, e ele cantou bem, na segunda chamamos 14 atores presencialmente e ele fez tudo muito certo. Eu e o Marco [diretor de atores] procurávamos a verdade e o Rafael conseguiu passar-nos essa verdade numa cena que tinha de fazer no casting. Acreditamos muito que era ele o ator que podia fazer isto, porque ele rapidamente compreendeu o Carlos Paião. Era isso que eu procurava, alguém com verdade.  

 

O Rafael é o protagonista, mas o elenco é composto por mais atores como Laura Dutra, Alberto Jerónimo, etc. Como foi construir esta dinâmica entre um grupo de atores tão variado?  

Era importante perceber quem era o Carlos Paião e depois fomos construir tudo à volta dele. Eu tenho sorte de fazer projetos há muito tempo e já tinha trabalhado com estes atores praticamente todos. E é uma dinâmica de muita generosidade, acima de tudo. Eu gosto de trabalhar com atores generosos, que conseguem ouvir. Eu reuni, em conjunto com o Marco, este elenco de pessoas com capacidade para ouvir, para serem generosas e para fazer o que seja preciso para acreditarmos nas palavras que estão a dizer. A dinâmica de grupo foi criada e  o projeto foi super feliz. Não houve uma chatice, uma zanga, nada. Eu acho que os atores e a equipa nem sequer perceberam que os dias foram tão pesados. Eu senti um bocadinho, mas tentei proteger sempre o elenco e a equipa técnica. Essa dinâmica de grupo foi incrível. Senão, acho que também não teríamos chegado a um resultado tão bom.  

 

Há um público que vai ver o filme que viveu os anos 80 e tem memória de Carlos Paião, e há outro público que não era nascido nessa altura. O que é que espera que estes dois tipos de público levem consigo depois de verem este filme? 

O que eu queria mesmo era que o filme resultasse emocionalmente, que fizesse as pessoas sorrir, chorar, passar uma hora e trinta e oito minutos de puro entretenimento e que saíssem felizes. E também gostava mesmo que as pessoas saíssem a cantar do filme, os mais velhos ou os mais novos. Se as pessoas saírem com vontade de ouvir as músicas do Carlos Paião, já fico profundamente feliz.  

 

O Sérgio já realizou uma série e um filme sobre o Salgueiro Maia, figura imponente da história portuguesa. Este filme sobre o Carlos Paião trouxe alguma coisa de diferente em relação aos seus projetos anteriores?  

A proposta é muito diferente e arriscada. Fazer uma espécie de musical, num contexto português, com menos dinheiro do que os outros países para produzir cinema, é sempre um long shot. Assim como aplicar as músicas no meio do filme, com uma espécie de histórias nas músicas que avançam, mas que têm de ter algum rasgo artístico. É muito diferente de fazer um filme convencional, mesmo que seja biográfico de uma personagem histórica. Este projeto foi particularmente diferente porque é testar muita coisa nova, é ter um elenco completamente disponível, mas também com muita gente nova. Acho que isto só se podia fazer assim com algum amor à mistura. E isso é que faz com que este projeto seja diferente dos outros. Não é que os outros não o tenham. Mas é preciso um bocadinho mais de dedicação. Esta coisa das músicas, coreografias, danças, cantar, é bem mais complexo.  

 

O que é que aprendeu mais como realizador com este novo filme?  

Eu aprendo mil coisas em todos os filmes. Normalmente o que eu tiro de melhor nas rodagens é a relação com as pessoas. E eu acho que isso é que faz com que eu seja melhor realizador, como acho que tenho uma boa capacidade de ouvir, tenho sempre tendência a receber muito nas rodagens, e é isso que eu tiro mais uma vez deste filme. Ouvi muito, recebi muito e foi super bonito.  

 

Há mais alguma história sobre a qual gostasse muito de fazer um filme no futuro?  

As histórias vão aparecendo e eu vou contando. Em novembro, dezembro e janeiro, vou rodar “Os Adeuses”, um filme baseado no romance do Juan Carlos Onetti, produzido pelo Paulo Branco, é a minha terceira colaboração com ele. Há de estrear o meu segundo filme do ano em outubro, que é As Memórias do Cárcere, também produzido pelo Paulo Branco, que é um filme consideravelmente diferente deste. O que interessa é estar com a cabeça ocupada e a fazer coisas que gosto.

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