Poesia de Inês Lourenço em destaque na Feira do Livro do Porto

Reprodução Facebook CM Porto

A poesia de Inês Lourenço vai ser homenageada na Feira do Livro do Porto, com uma exposição, uma instalação sonora e a dramatização de um poema sobre a tragédia na Palestina por alunas do Balleteatro, disse hoje a poeta.

Em entrevista telefónica à agência Lusa, a propósito da atribuição de uma Tília de Homenagem nos Jardins do Palácio de Cristal, no âmbito da Feira do Livro do Porto deste ano, a poeta portuense, uma antiga operadora dos CTT nascida há 83 anos na freguesia de Santo Ildefonso, revelou que a sua poesia sempre procurou aliar a “reflexão à emoção”.

“Na minha poesia procuro aliar a reflexão à emoção, porque não há arte sem emoção, e de maneira que essa emoção é precisamente para passar para o leitor aquilo que eu pus na página, que eu escrevi. […] Aliás, eu tenho um poema que acaba com o seguinte: ‘um poema é sempre uma pergunta sem resposta’. Portanto, também é uma grande reflexão sobre o poder da escrita”, disse.

Questionada sobre a atribuição da Tília de Homenagem, Inês Lourenço confessou que não contava com esta distinção em vida e ficou “surpreendidíssima” com a homenagem e com o programa, que inclui uma dramatização de um poema sobre a tragédia em Gaza, uma exposição com objetos pessoais e uma ‘playlist’ das músicas prediletas para passar no evento literário.

“Tive sempre uma participação discreta na vida literária e nunca gostei muito de muitas tertúlias e muita confusão, de maneira que prefiro mais o trabalho individual e a reflexão sobre as coisas, e ler e ouvir música”, declarou, acrescentando ser estranho estar a ser homenageada em vida, pois muitos dos anteriores visados foram-no quando “as pessoas já não estavam, já não pertenciam”, como foi o caso de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço ou Manuel António Pina.

No âmbito da homenagem à autora de “Cicatriz 100%”, a Feira do Livro vai inaugurar no sábado, pelas 12:00, uma exposição intitulada “Na lâmina implacável do tempo” com vários objetos pessoais da escritora, havendo ainda uma instalação sonora que cruza os versos de Inês Lourenço com a música de Surma.

Na sexta-feira, às 21:00, no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, alunas e alunos do Balleteatro vão dramatizar o poema “Neste Escuro e Sinuoso Abrigo”, sobre a Palestina, a partir de versos como “Às vezes / numa pequena pausa do ribombar monstruoso e longínquo / neste escuro e sinuoso abrigo, invento uma forma / de não enlouquecer”.

Segundo a poeta portuense, na exposição, o público vai poder ver vários objetos do seu arquivo pessoal, como correspondência trocada com Sophia de Mello Breyner ou Eugénio de Andrade, manuscritos, obras de arte, livros, fotografias e até várias capas da revista Hífen, na qual trabalhou vários anos.

Questionada pela Lusa, a autora elencou como principais temas da sua obra a infância, a cidade do Porto, o poder da literatura e da poesia, os animais e a música.

“O gato é o meu animal predileto, pela sua independência e pela sua não-subserviência. E também gosto de cães, tive as duas espécies, gatos e cães, e gosto muito do cavalo e de animais que metem geralmente muito medo e horror às pessoas”, contou, referindo que na área da música clássica elege Robert Schumann e Franz Schubert como os compositores preferidos, enquanto na música pop elege Beatles, Bob Marley e Freddie Mercury.

Dos artistas portugueses, Inês Lourenço colocou na ‘playlist’, que vai estar a ser tocada na Feira do Livro, artistas como Sérgio Godinho, Rui Veloso, GNR e muitos outros.

Recentemente distinguida com o Grande Prémio de Poesia Gil Vicente, Inês Lourenço assumiu ter ficado muito contente por este ano a 13.ª da Feira do Livro do Porto ser dedicada à poesia, considerando que a arte da poesia pode ser uma boa ferramenta nos tempos de tecnologias e de rapidez.

“A poesia nestes tempos que correm é muito necessária, porque […] em poucas palavras diz muito”, considerou, realçando que numa “altura da velocidade”, “de perder pouco tempo a olhar para as coisas e a ler as coisas”, a possibilidade de entrar num poema e deter-se num verso pode fazer diferença.

A 13.ª edição da Feira do Livro do Porto organizada pela Câmara Municipal abre sexta-feira e decorre até 06 de setembro nos Jardins do Palácio de Cristal, com mais de 200 iniciativas espalhadas por 144 ‘stands’ de editoras, livreiros e alfarrabistas.

Uma das novidades desta edição é a presença de convidados internacionais, uma estreia na história da feira, como é o caso do poeta e ativista palestiniano Mohammed El-Kurd, ou de Rim Battal, Elvis Guerra, Keeley Forsyth e Angélica Liddell.

A Feira organizou também 83 sessões pensadas para bebés, crianças, jovens e famílias fazerem oficinas criativas, sessões de leitura, cinema e jogos tradicionais, distribuídos pelos Jardins do Palácio de Cristal e pela Biblioteca Municipal Almeida Garret.

Cinema ao ar livre, teatro e concertos de Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves (Clã), Janeiro com Tatanka, ou Lena d’Água com Benjamim são outras das atividades previstas para a 13.ª edição da Feira do Livro do Porto, com entrada gratuita.

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