Conhecido como Poeta da Cidade, Pedro Freitas tem-se afirmado como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea em Portugal. Entre livros, leituras ao vivo e uma forte presença nas redes sociais, o poeta tem conquistado leitores de diferentes gerações.
Autor de Vim sem Tempo, distinguido com o Prémio Bertrand para Melhor Livro de Poesia de 2024, reedita agora “ela, metafisicamente doutro mundo”, a sua primeira obra e o livro de poesia portuguesa independente mais vendido em 2022 e 2023.
A propósito desta reedição, conversámos com Pedro Freitas sobre os amores que permanecem para além do fim, a forma como os sentimentos se transformam ao longo do tempo e o modo como a poesia pode ajudar a compreender aquilo que vivemos.
Escolheste a palavra «metafisicamente» para o título do livro. O que significa, para ti, alguém ser metafisicamente do outro mundo?
Esse foi o primeiro título que escolhi quando fiz um protótipo do livro, em 2016. Na altura, a relação em que o livro se inspira tinha pouco mais de um ano e reuni meia dúzia de poemas sob o título “Metafisicamente do Outro Mundo”. Metafisicamente do outro mundo, no sentido de esta pessoa com quem estou e este amor que sinto por esta pessoa é tão extenso, é tão profundo que é impossível ser algo desta dimensão. Tem de ser algo metafísico.
Mais tarde, quando a relação terminou, em 2021, depois de sete anos, já tinha muitos mais poemas escritos e percebi que queria transformar aquele conjunto num livro. E lembrei-me deste título mas faltava-lhe algo. Quis individualizar a pessoa sem revelar a sua identidade e, por isso, surgiu o pronome “ela”.
Além disso, tinha pensado, parece que não, mas foi um bocadinho pensado, não sabendo bem se ia dar certo ou não, que era as pessoas poderem substituir o “ela” pelo nome que quiserem. E tem acontecido, ao longo dos últimos anos, tenho visto em muitas biografias no Instagram e noutros sítios, pessoas a colocarem-se elas próprias ou a colocarem os namorados no lugar do pronome.
No prefácio escreves: “Há amores que duram para sempre, mesmo que o amor não seja sempre o mesmo.” Como evoluiu o significado dessa frase entre o momento em que escreveste estes poemas e a pessoa que és hoje?
Essa frase, essa última parte foi acrescentada agora, na reedição. O prefácio original terminava na frase “Eu tenho a outra. Somos metades de um só ser.” E essa continuação foi escrita agora mesmo nessa perspectiva de o livro já ganhou um outro peso.
Com o passar dos anos e à medida que eu fui crescendo, fui percebendo que o amor muda de lugar, de intensidade e de forma. As pessoas que amamos transformam-se e nós também.
E portanto, eu que quis deixar marcado nesse prefácio que apesar de haver pessoas por quem guardamos um carinho ao longo de toda a nossa vida, aquilo que sentíamos inicialmente por elas acaba por mudar e é nessa perspectiva que há amores que duram para sempre. Os amores continuam lá mas a forma como amamos já não é a mesma.
O livro sugere que há amores que sobrevivem à própria relação. Existe uma diferença entre esquecer alguém e deixar de amar alguém?
Acho que nunca esquecemos verdadeiramente alguém com quem partilhamos tantos anos da nossa vida, sobretudo numa fase tão importante como a passagem da adolescência para a idade adulta.
Já deixar de amar pode significar deixar de amar romanticamente. Isso não significa deixar de amar essa pessoa enquanto ser humano, enquanto amiga ou parte importante da nossa história.
Muitos poemas oscilam entre a celebração do amor e o luto pela sua perda. A escrita deste livro foi uma forma de viver mais intensamente o amor ou de sobreviver ao fim dele?
Mais de metade do livro foi escrita enquanto a relação acontecia e procurava descrever o amor que estava a viver. E um terço do livro foi escrito de forma a tentar sobreviver ao fim do amor, porque foi escrito depois de terminar e eu, destroçado e de coração completamente quebrado, sentia essa necessidade de me agarrar a tudo aquilo que me fizesse lembrar esta relação.
Portanto, muitos poemas foram escritos nesta dualidade entre, estou destroçado e quero agarrar-me ao pouco que tenho e por outro lado, era a única forma de me sentir feliz naquele momento, a relembrar-me dos bons tempos.
Ao releres o livro hoje, há algum poema que tenha adquirido um significado diferente?
Sim, e isso começou a acontecer quando os leitores se apropriaram dos poemas.
Há um poema que escrevi chamado “Deixar Ir”, que fala sobre esta coisa de “abrir mão” de quem gostamos porque acreditamos que essa pessoa está melhor sem nós, que eu escrevi para esta pessoa específica após o término. Pouco depois da publicação, um amigo meu ligou-me e disse-me que o poema o fazia lembrar da sua cadela que tinha morrido há pouco tempo. E isso para mim foi fascinante porque nunca na minha vida tinha escrito um poema a pensar que as pessoas se iam conectar com ele ou que iam colocar outra identidade que não esta pessoa no centro da ação. E isto foi acontecendo repetidamente ao longo dos primeiros anos em que publiquei o livro.
Em 2023, a minha avó morre e eu volto a ler o livro e também me acontece a mim. O último poema do livro que se chama “No Final” e que no fundo serve para dar um ponto final ao livro, um ponto final à relação e é quase como um fechar de ciclo. Quando o volto a ler, depois da morte da minha avó, sinto que é um poema que significa mais do que isso, que é um daqueles que ganha uma nova camada e que não se extingue necessariamente só nesta relação, que ganha quase como um poder de hino, de despedida e portanto, este foi aquele poema que mudou completamente de significado. Antes significava uma coisa e depois da morte da minha avó passou a significar outra.
Publicar poemas de amor é, de certa forma, expor a própria intimidade. Houve algum momento em que hesitaste antes de partilhar estes textos?
Não, também acho que nunca pensei muito sobre isso. Sempre encarei a poesia de uma forma muito simples, quem gostar, lê e quem não gostar, não lê. Eu nunca ia obrigar ninguém a ler-me, eu também faço isso com poetas e com livros de poesia.
O que tentei fazer foi ser o mais genuíno possível em relação ao que queria deixar escrito, pensando que quem me quisesse ler eventualmente encontrar-me-ia. E é assim que tenho construído o meu percurso. Nem toda a gente conhece os meus livros ao mesmo tempo e, por isso, gosto de continuar a falar sobre eles muito depois da publicação. As pessoas vão chegando aos livros de formas distintas e, por vezes, uma primeira impressão pode até não ser a mais positiva. No entanto, às vezes encontram um poema com o qual se identificam e começam a olhar para a minha escrita de outra forma.
Portanto, nunca houve um momento de dúvida ou de medo em relação ao que os outros poderiam pensar. Sempre tive a liberdade de ser quem sou, muito graças às pessoas que me rodeiam, aos meus amigos, aos meus pais e a minha família, que nunca me colocaram entraves ou condicionaram a minha forma de escrever.
Sendo um dos poetas mais ouvidos em Portugal, a oralidade influencia a tua escrita?
Sim, tento fazer com que todos os poemas que escrevo ou que vou incluir nos livros que publico, funcionem nessa outra camada da oralidade. Como também apresento espetáculos de poesia ao vivo, preciso que os textos funcionem quando são ditos em voz alta.
Portanto, sim, todos aqueles poemas que eu escrevo e que depois incluo num livro, passam por este processo de “triagem”, em que eu vejo se a organização das palavras funciona, se os versos funcionam e se tudo flui como deve ser. Há mesmo uma decisão deliberada e consciente, de muitas vezes alterar poemas, não porque não estejam bem escritos , mas porque não funcionam bem na oralidade, então altero-os para que se torne tudo mais fluido.
As redes sociais aproximaram a poesia de novos públicos e criaram uma relação mais direta com os leitores. O que aprendeste com essa proximidade?
Vou dividir a resposta por idades.
Com os mais novos, jovens, adolescentes, aprendi que eles não são “parvos”. Isto é, há uma ideia errada que os mais novos são “parvos”, que não percebem e não querem saber da poesia, e na verdade, não é bem assim. Eles sabem, eles gostam e interessam-se, o problema está no meio em que lhes chega. E as redes sociais vieram aqui aproximar-nos, a mim enquanto poeta, e eles enquanto futuros leitores e futuros escritores de poesia e eles acabam por entender que isto não é tão complicado como aparenta ser e a poesia pode ser muito mais simples e significar muito.
Portanto aprendi que os mais novos percebem a poesia, podem não perceber tudo, podem não entender necessariamente tudo a fundo, mas o mais importante na poesia que é o sentir, eles sentem.
Com os leitores mais velhos, percebi que existe uma enorme vontade de descobrir novas formas de viver a poesia. Vejo isso tanto no facebook, como depois nos espetáculos ao vivo e nos autógrafos, quando as pessoas mais velhas vêm falar comigo, e acabam por me dizer que ou já estavam cansadas da forma como a poesia lhes chegava ou que gostam de ler mas agora aprenderam que até gostam mais de ouvir do que necessariamente de ler e que se saem dali com um sentimento renovado.
Ao longo do livro, a poesia surge quase como uma forma de preservar o tempo. No final, quem salva quem: a poesia salva o poeta ou o poeta salva a poesia?
Parece-me um pouco presunçoso dizer que salvo a poesia. O próprio nome Poeta da Cidade já tem algo dessa ideia, muitas vezes as pessoas já nem dizem “da Cidade” e chamam-me apenas “o poeta”. Por isso, acrescentar a isso a ideia de que sou eu quem salva a poesia não me faz muito sentido.
Eu acho que qualquer escritor que se proponha a escrever algo profundamente emocional e, muitas vezes, autobiográfico procura essa catarse que a poesia proporciona. Existe, nesse processo, uma tentativa de compreender e explicar o mundo, de dar nome àquilo que sentimos e de descrever as nossas experiências. Fazemo-lo, em primeiro lugar, para nós próprios, numa procura de sentido e de entendimento.
Depois, ao partilharmos aquilo que sentimos e experienciamos, tentamos expandir essa reflexão aos outros, criando pontes que nos ajudam a compreender melhor quem somos e o mundo que nos rodeia.
Portanto, eu acho que é a poesia que salva o poeta.
Para terminar: se hoje pudesses dizer apenas uma palavra à pessoa que inspirou este livro, dirias «obrigado», «desculpa» ou «adeus»?
Diria obrigado.