Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, parte da atividade das FP-25 nos anos 80, mas evita um tom pedagógico para se afirmar como um thriller político tenso e imersivo. Mais do que explicar a história, o filme coloca o espectador dentro dela, acompanhando um grupo de jovens que, movidos por ideais, se perdem progressivamente de si próprios.
No centro está Rosa, interpretada por Jani Zhao, numa performance contida e precisa. A transformação da personagem faz-se de forma subtil, no olhar e nos silêncios, à medida que se afasta de si própria. É através dela que o filme constrói uma tensão onde há empatia, mas nunca conforto; há compreensão, mas não concordância.
Essa ambiguidade é reforçada por figuras do lado oposto, como o inspetor interpretado por Ivo Canelas e o jornalista vivido por Adriano Luz, que introduzem a perspetiva de uma sociedade em democracia, onde a luta política tem outros caminhos possíveis. Através deles, o filme levanta uma questão incómoda: se há espaço para agir dentro do sistema, o que justifica a passagem à violência?
Sem julgamentos fáceis, Projecto Global propõe uma reflexão sobre os períodos cinzentos após a Revolução de Abril, os limites dos ideais e o momento em que a ação política se transforma em algo irreconhecível.
É um filme que não se esgota na sala, prolongando-se na discussão que provoca.