Nas celebrações do 10 de junho de 2025, em Lagos, foi a Literatura quem primeiro se levantou para pensar Portugal. Não como ornamento, mas como consciência. Lídia Jorge subiu ao palco para dizer o que é raro ouvir em cerimónias de Estado: que o país não se constrói apenas sobre feitos gloriosos mas também sobre equívocos e memórias difíceis. Palavras sábias.
Trouxe Cervantes, Camões e Shakespeare para junto de nós, não para simplesmente citar em jeito de name dropping, mas para lembrar que os grandes escritores nunca foram neutros. Viram a guerra, a tirania e a desordem dos seus tempos, deram-lhes forma, nome e crítica. Testemunharam com arte. A literatura, disse Lídia Jorge nas entrelinhas com o seu timbre sereno, é lugar de lucidez. E, por isso, não pode calar-se quando a verdade está em risco.
Falou de Lagos como ponto de partida da expansão marítima e também do tráfico de escravos, lembrou que a história não se purifica com palavras suaves, que não há sangue puro, nem origem imaculada: a identidade portuguesa, como qualquer outra, é feita de atravessamentos, mestiçagens, conflitos e heranças múltiplas. Fingir o contrário é alimentar fantasias perigosas.
Mas não ficou pela memória histórica. Lídia Jorge falou do presente, com a coragem de quem recusa o lugar confortável da generalidade. Alertou para o tempo em que vivemos: um tempo em que «os loucos comandam os cegos» (invocando Shakespeare), e em que os cidadãos, reduzidos a seguidores, passam a viver «através de um écran de bolso». Uma crítica certeira à alienação digital e ao populismo que cresce à custa da ignorância cultivada. Afirmações que talvez tenham incomodado alguns dos presentes.
A sua voz foi clara, mas nunca simplista, não caiu na tentação de dividir o mundo em bons e maus, nem de dramatizar para comover. Falou com precisão, pois sabe que é aí que reside a ética da linguagem: no cuidado com cada palavra escolhida, na recusa da banalidade, na responsabilidade de nomear sem ferir, de confrontar sem humilhar.
Abordar temas sensíveis exige isso mesmo: delicadeza firme e coragem esclarecida. A literatura não está isenta desse trabalho. Pelo contrário, é das poucas formas de pensamento que conseguem expressar o indizível sem recorrer à imposição. Não impõe; propõe, expõe, questiona.
Há quem defenda que a arte deve entreter, que a literatura deve ser refúgio e não combate, mas esquecer que a linguagem molda visões do mundo é ceder terreno ao ruído, ao perigo. Um livro não é apenas um objeto de papel e tinta; é uma estrutura de pensamentos, uma posição ética, uma construção simbólica com efeitos reais, reflexo de um tempo real, mesmo que ficcionado.
Lídia Jorge demonstrou isso com o seu discurso. Não leu um texto protocolar. Partilhou uma visão do país, crítica, generosa, rigorosa, e lembrou-nos que a literatura pode ser uma forma de intervenção. Não para substituir a política, mas para lhe conferir profundidade, memória e consciência.
Escrever é uma escolha, e essa decisão tem consequências. Quando um escritor fala de racismo, misoginia, opressão ou desigualdade, não está a ser panfletário, está a assumir que a literatura é um espaço de responsabilidade e que há momentos em que o silêncio pesa mais do que o erro.
Em Lagos, neste 10 de junho, a literatura não se limitou a assistir. Falou. E, ao fazê-lo, resgatou o seu lugar mais nobre: o de dizer o que importa, com a ética de quem sabe escutar e observar antes de escrever ou falar. Este é um exemplo a seguir.
Crónica escrita por Analita dos Santos
Excelente crónica. Muito assertiva. Parabéns, Analita.