Disponível na Netflix desde este verão, Quinze Dias, de Daniel Lieff, adapta o romance homónimo de Vítor Martins, publicado em 2017. O filme insere-se no cinema brasileiro de representação LGBTQIA+, da qual Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, continua a ser uma das referências mais reconhecidas. A comparação é inevitável, não apenas pela temática, mas também pela forma como ambas as obras utilizam a adolescência para abordar questões que ultrapassam a sexualidade.
A história acompanha Felipe (Miguel Lallo), um adolescente inseguro que tinha planeado passar as férias em casa, a ler livros e ver séries, mas os seus planos mudam quando Caio (Diego Lira), vizinho e antigo crush de infância, vai passar quinze dias na sua casa enquanto os pais estão fora. A proximidade entre os dois desencadeia um processo de aproximação que permite ao filme explorar sentimentos, inseguranças e a relação dos jovens com as próprias famílias.
É precisamente na abordagem da temática LGBTQIA+ que Quinze Dias encontra uma das suas maiores virtudes. Em vez de centrar a narrativa na habitual descoberta da sexualidade, representada em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, o filme interessa-se pelo momento de a assumir perante os pais. O contraste entre a relação de Felipe e Caio com as respetivas famílias constitui um dos elementos mais bem conseguidos do filme e permite abordar a aceitação familiar sem transformar a questão num simples conflito dramático. A isto junta-se uma reflexão sobre a especulação em torno da sexualidade e os estereótipos que continuam associados à masculinidade adolescente, o que constitui outro dos pontos fortes do filme.
À semelhança de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que também referenciava relações superprotetoras com os pais, o filme não se limita à representação LGBTQIA+. Se a obra de Daniel Ribeiro utilizava a cegueira do protagonista para explorar temas como autonomia e descoberta pessoal, Quinze Dias coloca no centro da narrativa as inseguranças de Felipe em relação ao próprio corpo e as consequências do bullying. No entanto, a sua representação é, por vezes, demasiado insistente, e representada de forma infantilizada e repetitiva com personagens secundárias, o que retira alguma subtileza à narrativa.
Claramente pensado como uma comédia para um público adolescente, o filme recorre em vários momentos a sequências de fantasia e a representações do mundo imaginado de Felipe que procuram introduzir humor. O resultado, porém, nem sempre é eficaz. Com uma linguagem excessivamente infantil, estes momentos podem acabar por interromper o desenvolvimento emocional das personagens em vez de o complementar.
Visualmente, Quinze Dias aposta numa estética muito colorida, marcada por cores vivas e uma banda sonora dominada pela música brasileira alegre. Mesmo nos momentos mais melancólicos, a atmosfera permanece alegre, reforçando a identidade positiva do filme e preparando o espetador para um desfecho otimista, embora também contribua para tornar previsível a direção que a história irá tomar.
Quer no início, quer no decorrer do filme, o argumento tenta introduzir alguns conflitos de forma artificial e forçada. Algumas decisões das personagens parecem existir sobretudo para prolongar o drama e criar obstáculos à relação entre Felipe e Caio, sem que tenham peso suficiente para justificar essa evolução. Quando chega o final, a previsibilidade que já vinha sendo construída torna-se ainda mais evidente.
Quinze Dias é, essencialmente, um filme sobre mudança e aproximação entre dois adolescentes, entre filhos e pais e, sobretudo, sobre um jovem que precisa de parar de tentar controlar tudo para evitar sair magoado. A representação de afetos LGBTQIA+ e das inseguranças associadas à adolescência é pertinente e necessária, no entanto, nem sempre é acompanhada pela mesma maturidade na construção narrativa.


