Raul Manarte: Como a música cura em cenários de crise 

Raul Manarte é músico, fotógrafo e psicólogo humanitário, dividindo a sua vida entre o Porto e cenários de crise pelo mundo. No terreno, assiste a comunidades que transformam a música num instrumento de cura e empoderamento, provando que a arte não existe para vender, mas para unir as pessoas. Com o seu trabalho, Raul procura inspirar cada um de nós a converter empatia em ação, mostrando como a música e a fotografia se tornam poderosas ferramentas de transformação.

 

És músico, fotógrafo e psicólogo humanitário. Como é que estes três papéis se combinam no teu dia a dia?

De várias maneiras. Quando crio arte, sobretudo no processo de composição, sou influenciado por tudo o que vejo e experiencio. Muitas vezes, as histórias que chegam às consultas – as emoções, a vulnerabilidade, os acidentes que tiveram no rio da vida – têm um impacto tão grande que acabam por transbordar para as minhas composições.

Nas missões humanitárias, não é apenas a história das pessoas, é todo o contexto: as injustiças gritantes, o desmoronar do tecido social em situações de crise e catástrofe. Isso torna-se ainda mais avassalador. A composição musical e a fotografia são formas de gerir esse peso – uma maneira, admito, um pouco egoísta, de pôr cá fora tudo o que sinto.

 

Como foi o teu percurso desde o Porto até às primeiras missões internacionais?

Eu tirei o curso no Porto e comecei a fazer voluntariado lá com populações vulneráveis, de extrato socioeconómico mais desfavorecido, ao mesmo tempo que me envolvia com a música – aliás, comecei na música muito antes de seguir psicologia. Dei o salto para fora quando a Europa assinou o acordo com a Grécia e a Turquia, que impedia a entrada de refugiados e os mantinha em condições desumanas nesses países. Esse acordo foi assinado em março de 2016 e, já em dezembro desse ano, parti para a minha primeira missão.

Foi importante que essa primeira missão fosse na Europa, porque percebemos que há muita gente a sofrer em todo o mundo sem qualquer motivo, e não faz sentido não termos campos dignos mesmo cá na Europa. Isso os meus horizontes em relação ao que podemos alcançar com a ação cívica, para além do voluntariado e das ações humanitárias – que são absolutamente necessárias, mas não suficientes. Desde então, percorri vários cenários de crise e catástrofe e acompanhei conflitos armados por todo o mundo.

 

De que forma a tua formação em Psicologia influencia o modo como captas histórias e compões temas?

A arte é o que me permite lidar com essas realidades. Não são tanto as situações em si que alimentam a composição, é a arte que me ajuda a assimilar tudo de forma visceral. Por exemplo, criei um tema sobre os fogos de 2017 e, antes de o tornar público, apresentei-o à Associação de Vítimas de Pedrógão para obter a aprovação deles. Como ser humano, senti na pele aquele choque, e a música ajudou-me a processar tudo.

Numa fase seguinte, por vezes a música acaba por servir diretamente uma causa, ainda que não fosse esse o propósito inicial. Tenho uma canção sobre a mutilação genital feminina e o tráfico de crianças na Guiné-Bissau que acabou por ser usada pelas ONU. Outro tema, gravado num campo de refugiados, foi incluído em campanhas de angariação de fundos e de bens essenciais para esses locais. Quando estou em contextos de crise ou catástrofe, vejo sempre as comunidades locais, seja onde for, utilizarem a música como forma de cura e empoderamento. E lembro-me que a música não serve para vender, serve para unir as pessoas. 

“Vi o impacto direto nos pacientes que estavam acamados há dias, queimados pelas explosões: vi-os chorar enquanto cantavam juntos.”

 

“Na Bissau” foi o tema usado na campanha da ONU contra a mutilação genital feminina. Qual foi o momento que te inspirou a criar essa música e como é que a comunidade local recebeu essa mensagem musical? 

Foram vários. Após um mês a trabalhar em neonatologia e pediatria intensivas, soube que a taxa de mutilação genital feminina na Guiné-Bissau era de 49% e foi um choque para mim. Isso impulsionou-me a compor “Na Bissau”.

Mais recentemente, quando estive em Gaza, compus um tema ao lado de um colega palestiniano. A ideia era dar voz direta a alguém que estivesse de facto no terreno. As minhas músicas não falam pelas pessoas que vivem essas situações – eu posso estar no mesmo local, mas não passo pelo mesmo. 

A minha perceção sobre como a comunidade recebe as minhas músicas é muito limitada. É sobretudo através dos meus colegas locais, que me dizem que gostam e acham importante o que faço. Ainda assim, não pretendo ser a voz deles, porque simplesmente não sou. Acho fundamental dar visibilidade a artistas e composições locais – esse é o nosso principal papel enquanto cidadãos preocupados que querem mudar realidades. As minhas músicas servem sobretudo para eu processar o que se passa em cada local; se depois forem aproveitadas e tiverem impacto positivo para as comunidades, fico satisfeito.

 

Acreditas que a música pode mudar narrativas de dor em esperança? 

Nas comunidades onde trabalho em cenários de crise, a música vai além de mudar narrativas: transforma a própria sintomatologia das pessoas, aliviando tanto o sofrimento psicológico como o físico. Por exemplo, contratámos o meu amigo, que canta comigo no tema sobre Gaza, para tocar nos quartos do hospital. Vi o impacto direto nos pacientes que estavam acamados há dias, queimados pelas explosões: vi-os chorar enquanto cantavam juntos, e isso tornou-se parte integrante das nossas atividades de saúde mental. A música serve para nos unir e nos curar. 

 

No Norte de Moçambique, estiveste junto de pessoas que fugiam ao Estado Islâmico. Qual foi a imagem ou o som que nunca esqueceste desse período?

Essa missão teve uma particularidade marcante. A aldeia onde estávamos foi atacada e conquistada, e dezenas de pessoas foram mortas nesse dia, a poucos metros de onde nos encontrávamos. No entanto, o que mais me impactou foi a coragem e a generosidade dos locais, mesmo diante do pior dia das vidas deles. Foram eles que vieram ao sítio onde estávamos escondidos para nos avisar de que estava tudo bem. Nós tínhamos uma distração, mas eles não e, ainda assim, não deixaram de ser generosos. 

“O que nos falta, enquanto sociedade, é oferecer opções concretas de atuação, mostrar como as pessoas podem realmente ajudar, transformando empatia em ações úteis.”

 

Depois de testemunhar as realidades no terreno, levas tudo isso para o palco. No teu novo conceito de espetáculo, a performance das músicas é acompanhada pelos vídeos que mostram a realidade no terreno. 

Sim. Nem todos os meus temas são sobre essas realidades, mas sempre que tenho um vídeo, projeto-o durante a apresentação e incluo um call to action, oferecendo opções para que quem assiste deixe de ser mero espectador e se torne agente de mudança, contribuindo para melhorar a realidade dos lugares sobre os quais estou a falar.

As pessoas reagem com grande empatia, algo que nunca duvidei. Falar em números e estatísticas é uma coisa, mas quando mostramos rostos e vidas humanas, isso marca muito mais – e é essa a sensação que tenho. O que nos falta, enquanto sociedade, é oferecer opções concretas de atuação, mostrar como as pessoas podem realmente ajudar, transformando empatia em ações úteis.

Por exemplo, após o espetáculo disponibilizamos um flyer com um QR code que direciona para várias petições que as pessoas podem assinar, coletivos e iniciativas às quais podem aderir, locais para voluntariado e organizações para destinar donativos. A linha que liga essas ações às pessoas no terreno parece ténue, mas existe.

Já estive em contextos como a Ucrânia e Moçambique, onde a comunidade internacional mobilizou apoio e os meios no terreno não faltavam. Mas também passei por locais como Sudão do Sul e Gaza, onde muitas pessoas desconhecem a situação ou, mesmo quando sabem, não têm como contribuir. Em todos os meus espetáculos e comunicações, procuro fazer isso.

A magia que une as pessoas num cenário de guerra, em Gaza, através da música, é a mesma que aproxima as pessoas num auditório em Portugal.

 

Estás a preparar algum novo projeto ou missão? 

Estou prestes a lançar três temas. O primeiro é o que gravei com o meu colega palestiniano sobre Gaza, e os outros dois não têm relação direta com as missões humanitárias. A ideia é manter um ciclo de composição e divulgação, lançando um tema por mês ou, no máximo, a cada dois meses. Devo regressar a Gaza em breve, talvez em julho, e até lá continua o desafio diário que todos partilhamos: através de ações cívicas, contribuir para melhorar esses cenários.

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