O espetáculo “Rei Lear”, de William Shakespeare, com tradução de Álvaro Cunhal e encenação de António Pires, está em cena até 26 de julho, no Auditório dos Oceanos, depois de uma temporada esgotada no Teatro do Bairro. Produzido pela Ar de Filmes, o espetáculo estará em cena de quarta a sexta-feira, às 21h00, e aos sábados e domingos, às 17h00.
Considerada uma das maiores tragédias da literatura universal, a peça foi escrita entre 1603 e 1606 e aborda temas como o poder, a família, a ambição e a decadência humana. Inspirada em antigas lendas britânicas, acompanha a história do envelhecido Rei Lear, que decide dividir o reino entre as três filhas, acreditando poder abdicar do governo sem perder autoridade. A decisão desencadeia uma sucessão de conflitos familiares e políticos que conduzem o monarca à perda do poder e ao confronto com a sua própria fragilidade.
O elenco reúne Adriano Luz, André Ramos, Carolina Campanela, Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Dinarte Branco, Dinis Gomes, Eurico Lopes, Francisco Vistas, Gonçalo Norton, Hugo Mestre Amaro, Jaime Baeta, Marcello Urgeghe, Rodrigo Machado e Sofia Marques.
A encenação recupera a tradução realizada por Álvaro Cunhal entre 1953 e 1955, durante o seu mais longo período de prisão na Penitenciária de Lisboa. Com o apoio da irmã, que lhe fazia chegar dicionários e obras de referência, Cunhal desenvolveu uma tradução que viria a tornar-se uma das versões portuguesas mais reconhecidas da obra de Shakespeare, destacando-se pelo rigor linguístico e pela força dramática. Publicada anonimamente pela primeira vez na década de 1960, a tradução apenas teve a autoria oficialmente revelada em 2002, três anos antes da morte de Álvaro Cunhal.
Os bilhetes para os espetáculos no Auditório dos Oceanos encontram-se disponíveis na Ticketline e nos locais habituais. A produção conta com o apoio institucional da Direção-Geral das Artes.
Aceda à entrevista a Adriano Luz, ator que interpreta Rei Lear, e a António Pires, encenador do espetáculo.
Qual foi o maior desafio emocional e físico de encarnar uma personagem como o Rei Lear?
Adriano Luz – É um personagem que tem um grande percurso emocional, começa por ser uma coisa e transforma-se noutra. É, provavelmente, um dos maiores personagens de toda a obra de Shakespeare. É um personagem que tem muitas dificuldades, começa por ser um tipo muito autoritário, muito cheio de si, muito vaidoso, e acaba destroçado, derrotado, humilhado, bate na loucura, desce à perda irreparável. Dentro de todas as personagens que interpretei, seja Shakespeare ou não, nunca nenhuma me tocou, e é muito difícil tocar, que tenha estas esquinas todas que este personagem tem.
Lear é um homem poderoso que acaba por perder tudo. O que é que esta viagem lhe ensinou enquanto ator?
Adriano Luz – Que fazer teatro é muito difícil. É muito mais difícil do que fazer cinema ou televisão. Fazer teatro é como fazer circo, andar no ramo sem rede. Todos os dias, quando começam os espetáculos, eu estou numa pilha de nervos e já tenho anos disto. Recordou-me que não há nada mais difícil, mas ao mesmo tempo não há nada mais gratificante, do que fazer teatro. Quando chegamos ao fim e a coisa corre bem, não há nada mais gratificante. E com a idade, ao contrário do que possa parecer, estar em cima de um palco transforma-se numa coisa muito violenta, muito assustadora. É assustador entrar para cima de um palco e dizer assim, “Agora vou fazer o Rei Lear”. Com 20 anos, isto não me pesava. Agora pesa-me imenso esta ideia de que estou a fazer este personagem que tantos atores icónicos no mundo inteiro fizeram.
Esta é uma peça escrita há mais de 400 anos, apresentada para o público de agora. O que é que mais gostava que os espectadores levassem consigo depois de ver esta peça?
Adriano Luz – Não há no espetáculo nenhuma cedência comercial, este é o texto integral com a sua beleza e nós o que tentamos fazer é puxar as pessoas para a beleza da palavra que o Shakespeare e a tradução do Cunhal têm. Eu gostava que as pessoas levassem o espetáculo na íntegra, porque se eu contar este espetáculo a um amigo a beber uma cerveja, parece que estou a falar de uma novela, tem os vilões, tem plots secundários que se intercruzam… O que nós gostamos que as pessoas sintam, no fim, é que se emocionem, que se sintam tocadas, pelo nosso espetáculo. Cada um vê neste Lear alguém com quem se cruzou na vida. A alguns espectadores fica-lhes mais a decadência do Lear do que a prepotência inicial. Há uma tentação de ter pena do Lear, porque ele não tem um fim muito jeitoso, mas tendemos a esquecer o que ele é de início. Ele, no início, é uma pessoa com valores muito errados. Depois paga por isso e o percurso dele quase que o resgata desse primeiro momento. O que eu gosto de pensar é que cada um leva uma coisa.
Adriano Luz interpreta o Rei Lear, mas o espetáculo é constituído por um elenco numeroso de diferentes gerações. Como foi construir esta dinâmica e camaradagem entre todo o elenco, para a construção desta peça?
Adriano Luz – Isso é o talento do [António] Pires. Ele tem um talento extraordinário para juntar gente e para criar um corpo mundo. O grosso modo de aturar pessoas e juntá-las não é fácil, é tremendamente difícil fazer espetáculos com este número de atores, porque é muita gente. Nós agora não estamos no Teatro de Bairro, mas o Teatro do Bairro é um teatro que tem essa capacidade que os teatros mais pequenos ainda conseguem manter de criar famílias em cada espetáculo. E isso é mérito de quem dirige. Neste caso é mérito do [António] Pires.
O que é que mais o motivou e inspirou nesta tragédia de Shakespeare para querer encená-la?
António Pires – Eu gosto imenso de Shakespeare, de textos bem escritos, com o vocabulário muito rico. Isso é uma coisa que acontece muito com Shakespeare. São textos que nós lemos e começamos a descobrir coisas, a pensar sobre o mundo, a descobrir ligações, e aquilo parece uma matéria infinita. Tenho a sensação que se fosse agora fazer outra vez o Rei Lear, iria continuar a descobrir coisas. O Rei Lear parece uma espécie de um menu, porque tem imensos ingredientes que depois aparecem em quase todas as outras peças de Shakespeare. Outra coisa que também me deixou muito contente e surpreendido foi a tradução. O Álvaro Cunhal fez esta tradução numa cela na cadeia. Tinha apenas o livro, em inglês, que era uma edição anotada, mas para traduzir um texto como este é preciso ter acesso a muita informação. Era uma pessoa bestialmente culta para conseguir fazer isto. A encenação está feita para passar o texto ao espectador de uma forma muito simples e a tradução ajudou, porque é muito clara.
Houve alguma dificuldade em trabalhar a tradução de Álvaro Cunhal?
António Pires – Embora seja uma tradução em que o vocabulário é muito rico e erudito, houve alguma dificuldade dos atores transformarem numa coisa deles próprios. Os atores quando estão a fazer as palavras têm que ser deles, não se pode ter a sensação que estão a dizer umas palavras que outra pessoa escreveu. Embora esse trabalho tenha sido difícil, este não é um texto que anda ali nos rodriguinhos, numa coisa poética. As ideias são claras, os personagens, quando abrem a boca para falar, dizem coisas muito concretas, embora a poesia esteja lá, não deixa de ser belo. Portanto, foi só coisas boas, ter encontrado esta tradução do Álvaro Cunhal.
Como encontrou o equilíbrio entre o respeito por um texto clássico de há 400 anos e uma encenação atual para o público contemporâneo?
António Pires – Eu acho que não é preciso grande esforço para os clássicos de Shakespeare se transformarem em objetos atuais, porque com o tempo, eles parecem que são de hoje, é por isso que se chamam clássicos. Seja há 400 anos ou agora, é sempre a mesma história. Quando tu lês, aquilo parece-te sempre coisas que são muito relacionadas contigo, com a vivência, com o mundo que tu estás a ver. São textos com uma análise muito grande dos seres humanos, que tocam nos problemas essenciais da humanidade. Quando vamos para o palco interpretar, a nossa cabeça está feita com a sociedade e os problemas de hoje, e somos influenciados pelo mundo em que estamos a viver. Estes clássicos são sempre atuais, eles próprios mudam consoante o tempo, porque são trabalhados pelas pessoas no seu tempo.
Depois da temporada esgotada no Teatro do Bairro, o que muda ao apresentar o espetáculo no Auditório dos Oceanos? O sucesso da temporada no Teatro do Bairro criou expectativas para esta nova etapa?
António Pires – O espetáculo no Teatro do Bairro esteve sempre esgotado, foi muito bem aceite pelo público, e continua a ser. Eu estou surpreendido porque neste momento no Auditório [dos Oceanos], temos salas não esgotadas, mas quase sempre cheias. É um sítio que leva mais de 600 pessoas, e ver o público aderir daquela maneira ao espetáculo, e a forma como eles aplaudem no fim, é uma satisfação, deixa-me muito contente. Na mudança, fazemos coisas especialmente técnicas. Quando fazemos uma digressão, vamos adaptando o espetáculo, a cenografia, a luz, ao tamanho das salas. É diferente estar a fazer no Teatro do Bairro, que tem 100 lugares, de estar a fazer para 600 pessoas. A luz tem que ser maior, temos que amplificar as vozes dos atores, ou seja, mudar questões técnicas para manter o mesmo espetáculo.
O que é que é esta produção do Rei Lear, de António Pires, apresentada no Auditório dos Oceanos e no Teatro do Bairro, traz de diferente de todas as outras apresentações de Rei Lear que já foram feitas em Portugal?
António Pires – Cada pessoa que faz, faz diferente. Sempre que um artista agarra num texto para fazer, há de o fazer muito à sua maneira. Nós fomos muito sinceros em relação ao trabalho que fomos construindo, logo transformou-se numa coisa que tem uma identidade que é nossa. Houve um trabalho muito sério de artistas, muito de nos perdermos, não sabendo o que é que fazíamos e como é que fazíamos, e isso transforma este Rei Lear numa coisa única.

