Rodrigo Leão: “O Rapaz da Montanha” é o álbum mais português da minha carreira

Editado a 25 de Abril, “O Rapaz da Montanha” é o álbum mais português da carreira de Rodrigo Leão. Pela primeira vez, todas as canções são cantadas em português, num trabalho que cruza memória pessoal, referências à música portuguesa dos anos 70 e uma reflexão mais ampla sobre o país.

A carreira de Rodrigo Leão confunde-se com a história recente da música portuguesa. Depois da Sétima Legião e dos Madredeus, iniciou em 1993 um percurso a solo que viria a cruzar-se com artistas como Ryuichi Sakamoto ou Beth Gibbons. Mais de três décadas depois, apresenta agora “O Rapaz da Montanha” no Coliseu do Porto, a 8 de Fevereiro, um álbum que parte de “Cadeira Preta”, tema inspirado numa frase da sua mulher, Ana Carolina Costa: “Se Deus perdoa a quem engana, quem é que perdoa a Deus?”

 

Que lugar ocupa “O Rapaz da Montanha” na sua trajetória musical?

É o meu disco mais português: todas as canções são cantadas em português. Já tinha este álbum na cabeça há cerca de três anos, o que não é muito habitual no meu processo. Normalmente componho de forma mais intuitiva, sem saber o destino final. Neste caso foi diferente.

Tudo começou com uma canção que fiz com a minha mulher no Alentejo, um lugar de grande paz. “Cadeira Preta” nasceu aí e acabou por dar origem à ideia do disco. A partir desse momento fui guardando ideias e a trabalhá-las ao longo dos dois anos seguintes.

Este trabalho tem também muitas influências da música que marcou a minha adolescência, sobretudo do universo da música portuguesa dos anos 70, de compositores como o Zeca Afonso ou o José Mário Branco. A minha música sempre teve referências muito diversas, e este disco reflete isso de forma bastante clara.

 

Há alguma história ou lembrança específica do país ou da sua infância que tenha inspirado alguma das músicas?

Não sei precisar exatamente (risos). Mas lembro-me bem de Abril de 74: tinha nove anos, andei na rua, subi aos tanques, vi os soldados… Muitas destas canções foram trabalhadas durante 2024, ano em que se assinalaram os 50 anos da Liberdade, e isso acabou por estar, de alguma forma, presente no disco.

 

Daí o álbum ter saído no dia 25 de abril?

Sim. Acabou por ser propositado. Sabíamos que o disco teria de sair nesse mês e escolhemos esse dia. Foi uma coincidência feliz.

 

O álbum conta com amigos de longa data e vários convidados. Como escolheu estas parcerias?

Também por isso este é um disco muito português. Convidei músicos que admiro profundamente: o José Peixoto na guitarra, o Gabriel Gomes, com quem toco há mais de 40 anos na Sétima Legião, o Carlos Poeiras, o Francisco Palma, que conheci já numa fase final do disco, e a minha filha Sofia, que canta o tema que fecha o álbum.

Nos meus trabalhos há sempre um ambiente muito familiar. Gosto de trabalhar com pessoas próximas: família, amigos, amigos de infância. São pessoas que me ajudam a concretizar as ideias que vou tendo ao longo do caminho.

Há alguma música que considere especial?

A “Cadeira Preta”, porque esteve na origem de tudo. Mas é um disco muito coeso. As percussões, os coros em alguns temas, a guitarra do José Peixoto, o acordeão – tudo isso cria uma unidade muito forte.
Também gosto particularmente de “O Rapaz da Montanha”, foi uma canção que me deu muito prazer concretizar.

 

O que representa o rapaz da montanha?

Acho que existe um pouco do rapaz da montanha em todos nós. A necessidade de nos afastarmos um pouco da realidade, de irmos para um lugar mais alto e percebermos que, apesar de algumas coisas terem melhorado, ainda há muito por fazer.
É uma figura simbólica, mas que representa bem o espírito do álbum. Apesar de ter letras mais duras ou tristes, o disco acaba por transmitir uma mensagem positiva.

 

Que papel acha que a colaboração e a mistura de estilos têm na música contemporânea em Portugal?

No meu caso, são fundamentais. Tive a sorte de trabalhar com pessoas muito diferentes entre si: desde a Beth Gibbons ao Neil Hannon, da Rosa Passos à Adriana Calcanhotto, passando pelo Daniel Melingo. Cada colaboração acrescenta algo novo à minha música.

Acho saudável poder navegar por diferentes estilos, sobretudo aqueles que marcaram a minha adolescência. Talvez por isso não exista uma monotonia de disco para disco. Vou colaborando com pessoas novas, mantendo também músicos que me acompanham há muitos anos.

 

Como tem vivido estes anos da sua carreira e que experiências marcaram este percurso até hoje?

Sinto-me um sortudo (risos). Muito feliz e realizado. Começámos muito cedo, há 44 anos, com a Sétima Legião. Depois vieram os Madredeus, até 1994, que nos deram a oportunidade de viajar pelo mundo e conhecer realidades muito diferentes. Essas experiências foram fundamentais e continuam a influenciar a minha música.

A minha carreira a solo começou há 33 anos e há temas desses primeiros projetos que ainda hoje toco ao vivo. Poder conhecer músicos de áreas tão distintas, viajar, aprender constantemente é muito gratificante. Estou muito contente.

 

O que mais ouve do público sobre a sua música?

Acho que as pessoas gostam muito do lado romântico das minhas canções.

 

Como vê a evolução da música portuguesa atualmente?

Há muita coisa interessante a acontecer. Gosto, por exemplo, do Slow J, da Ana Vieira, dos The Gift, do Quarteto de Concertinas dos Danças Ocultas, do Marco Oliveira. Produz-se muito mais música hoje do que há 44 anos, é tudo mais acessível.

 

O que podemos esperar do concerto no Coliseu do Porto?

É um concerto que temos vindo a preparar com muito cuidado. Tocamos grande parte do álbum, mas também temas de trabalhos anteriores. Há momentos cantados em português, partes instrumentais, passagens mais intimistas e românticas, e outras mais alegres.
É, acima de tudo, um concerto onde nos vamos divertir. Espero que essa alegria chegue ao público.

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