De 8 a 31 de julho, o Ageas Cooljazz regressa a Cascais para mais uma edição que reúne alguns dos maiores nomes da música nacional e internacional. Entre as estreias deste ano estão Saint Caboclo e os BOMBAZINE, dois projetos em clara ascensão que terão a oportunidade de abrir noites de artistas de referência: os Scissor Sisters e os Franz Ferdinand, respetivamente.
À conversa connosco, os dois projetos refletem sobre o percurso que os trouxe até um dos festivais mais emblemáticos do verão português, o significado desta estreia e os próximos passos das suas carreiras, numa fase marcada pelo crescimento, pela criatividade e pela vontade de continuar a evoluir.
BOMBAZINE: “Não estava no nosso bingo para 2026 abrir para os Franz Ferdinand”
Em pouco mais de três anos, os BOMBAZINE passaram de celebrar os primeiros milhares de reproduções nas plataformas digitais para pisar alguns dos maiores palcos do país. Depois do EP Grã-Matina, do álbum Samba Celta e da participação no Festival da Canção, a banda estreia-se agora no Ageas Cooljazz, onde, a 25 de julho, abre a noite dos Franz Ferdinand, em Cascais. À conversa connosco, falam sobre o crescimento inesperado do projeto, a evolução da sua identidade musical e o futuro, numa fase em que procuram equilibrar a criatividade com a necessidade de parar, respirar e preparar o próximo capítulo.
Os BOMBAZINE nasceram em 2022 e rapidamente conquistaram um espaço na cena indie nacional. O que explica este crescimento tão rápido?
Manel Figueiredo: Nós começámos este projeto à volta de 2022, exatamente. As circunstâncias foram um pouco especiais: nós lançámos o nosso EP “Grã-Matina” em abril de 2023 e tivemos a felicidade de participar num concurso dos Nirvana chamado Oeiras Band Sessions, que nos permitia, se ganhássemos o concurso, tocar no Nos Alive.
Portanto, estas circunstâncias especiais fizeram com que tivéssemos uma rampa de lançamento e acho que conseguimos capitalizar isso para a nossa música.
Depois disso, acho que foi também fruto do nosso trabalho, ou seja, nós tivemos um conjunto de concertos associados a esta participação no Oeiras Band Sessions. De seguida, voltámos rapidamente para o estúdio para realizar um novo trabalho, o nosso álbum Samba Celta, que lançámos em novembro de 2024, praticamente um ano e pouco depois.
Juntando estes dois momentos conseguimos, no fundo, pôr muita música cá fora num período tão curto quanto um ano e meio. Claro que depois do lançamento do Samba Celta conseguimos participar no festival da canção, o que nos permitiu ainda ganhar mais fãs e ouvintes acima de tudo, o que nos permitiu fazermos uma data de concertos. Foram estas as circunstâncias e não estávamos à espera, de todo.
Não esperava que tivessemos um crescimento assim tão exponencial, pelo menos no início.
Que diferenças encontram entre este álbum (Samba-Celta) e o EP Grã-Matina?
Vasco Granate: Se calhar o EP é uma coisa um bocadinho mais imediata, é um groove assim mais imediato, com umas sonoridades mais rock. Também era fruto de várias coisas que já estávamos a fazer há uns tempos. Já o Samba Celta acaba por ser algo um pouco mais aprimorado no ponto de vista dos arranjos, porque juntamos influências mais brasileiras, mas também acrescentamos uns arranjos de cordas, instrumentos que consideramos que fizeram crescer um bocadinho os arranjos.
Essas são as principais diferenças que, acima de tudo, se podem encontrar entre os dois trabalhos. Outra das características também do nosso álbum Samba Celta é que também temos a entrada de músicas mais calmas, para contrastar com as músicas mais dançáveis.
O que significa para vocês estrearem-se no Ageas Cooljazz?
Manuel Protásio: Bem, falando um bocadinho pela banda, acho que é o maior palco, pelo menos pelo contexto em que surge. Embora já tenhamos tocado no Nos Alive, este é o maior palco onde vamos tocar até hoje. A ideia de estar a tocar antes de uma banda como os Franz Ferdinand, à hora que é, no palco principal, é provavelmente o maior feito desta banda, pelo menos a nível de tocar ao vivo. E estamos muito contentes.
Este percurso curto da banda já conquistou uma série de coisas que no início ninguém estava à espera. E aí faço das palavras que o Figueiredo disse as minhas: lembro-me de nós festejarmos os mil streams do Tábua Rasa e agora, de repente, estamos a ir tocar no Ageas a abrir para os Franz Ferdinand, que é tudo um bocado surreal e vamos aproveitar ao máximo.
Vasco Granate: Acrescentar também que é bom nós termos agora, no ano de 2026, que é um ano em que ainda não lançámos nada, em que estamos mais numa fase de voltar para o estúdio, um patamar de subida naquilo que tem sido o nosso percurso, portanto ficamos muito felizes com isso. Eu não estava à espera, não estava no nosso bingo para 2026. Nós tínhamos disponibilidade para alguns concertos. Obviamente que a turnê do ano passado foi maior porque foi no seguimento do álbum e do festival da canção e este ano, como queríamos começar a trabalhar em coisas novas, estávamos com a ideia de fazer concertos, mas numa lógica de concertos mais cirúrgicos. Isto foi mesmo uma oportunidade incrível para fechar aqui o ciclo deste último trabalho e começarmos também a olhar para o futuro.
O que é que o público pode esperar do vosso concerto nesta noite? Algumas pistas quanto à setlist?
Vasco Granate: Queremos, obviamente, trazer alguma novidade àquilo que tem sido a nossa setlist, mas vai ser por aí. Vai ser dentro das músicas que nós temos tocado, mas se calhar com alguns twists, com alguns rearranjos e mudar um bocadinho o contexto de transição que pode haver entre as músicas.
Se o público do Cool Jazz pudesse guardar apenas uma sensação do vosso concerto, qual é que gostariam que fosse?
Filipe Andrade: Desde que saiam com um sorriso na cara, para nós está ótimo.
Vasco Granate: Acho que vamos fazer um bom aquecimento para pôr as pessoas num bom mood para depois ter ali uma explosão mais rockeira no concerto dos Franz Ferdinand.
Manuel Protásio: Eu acho que o objetivo é ir buscar mais ouvintes e como isto é uma plataforma que nós nunca tivemos, o palco principal de um festival destes, a esta hora. A ideia também é que as pessoas fiquem com a nossa banda na cabeça e vão procurar ouvir mais coisas.
Depois do lançamento de Samba Celta e desta presença no Cooljazz, quais são os próximos objetivos da BOMBAZINE?
Vasco Granate: Nós tivemos três anos de lançamentos seguidos. Tivemos o EP em 2023, o álbum em 2024 e ainda lançámos o “Apago Tudo”, a música do Festival da Canção em 2025.
E, portanto, agora estamos numa fase em que queremos, efetivamente, olhar para o futuro com novas músicas mas também precisamos de digerir um bocado aquilo que foram estes três anos de muita intensidade a nível criativo. Queremos estar à altura daquilo que temos feito e, portanto, agora vamos virar-nos um bocadinho “para dentro” e tentar pensar com mais dedicação no novo trabalho. Não temos ainda prognósticos nem datas mas queremos voltar a pôr qualquer coisa cá fora, obviamente.
Manuel Figueiredo: Eu queria adicionar que nós funcionamos muito assim: gostamos de definir objetivos para depois os tentarmos concretizar. Temos aqui uma circunstância específica que é todos trabalharmos, o que pode dificultar um bocado a rapidez com que conseguimos, no fundo, progredir os trabalhos mas, sem dúvida, o nosso objetivo para a próxima fase é lançar música nova.
Filipe Andrade: Como o Vasco estava a dizer, tivemos três anos que foram muito duros em termos criativos. E não esquecer que o ano passado, com a turnê, também foi muito duro porque, como o Manuel Figueiredo estava a dizer, todos trabalhamos e o nosso tempo livre foi todo passado em viagens e em concertos. O nosso foco este ano, para além de fazer música, é precisamente respirar. Até porque temos dois membros que foram pais recentemente e precisamos de descansar um bocadinho e reorganizar a cabeça.
Saint Caboclo: “Ainda não acredito que faço parte deste cartaz”
Desde que iniciou o seu percurso como DJ e produtor, em 2018, Saint Caboclo tem vindo a afirmar-se como um dos nomes emergentes da nova geração da música eletrónica. Depois da edição da mixtape NSFW, em 2025, estreia-se agora no Ageas Cooljazz, onde, a 29 de julho, abre a noite dos Scissor Sisters. À conversa connosco, fala sobre o percurso que o levou das primeiras raves aos grandes festivais, a forma como mistura diferentes influências nos seus DJ sets, a importância da comunidade na sua atuação e o momento especial que representa a estreia num dos palcos mais emblemáticos do verão português.
Começaste a tua carreira em 2018. Como surgiu esta paixão pela música eletrónica?
Para ser sincero, nessa altura estava um pouco perdido. Tinha desistido da faculdade e sabia apenas que queria trabalhar com arte de alguma forma. Não queria seguir o caminho académico. Eu ia estudar tradução, mas sentia que os meus planos não estavam alinhados com aquilo que realmente queria.
Mudei-me para Lisboa e comecei a sair mais. Com o tempo, fui encontrando uma paixão pela música eletrónica, porque passava muito tempo em festas e raves. Foi aí que percebi que podia existir um futuro para mim neste universo.
Nos teus sets cruzas influências como o baile funk, o Jersey Club e o house. O que procuras nessas misturas?
O funk é uma das expressões musicais mais fortes no Brasil e foi a minha primeira grande influência dentro da música eletrónica. Tudo começou com o Miami Bass e a sua ligação ao funk, sobretudo através de projetos como o Furacão 2000.
Mais tarde, o house e o techno entraram na minha vida já em Lisboa, quando comecei a frequentar raves. Na altura, confesso que não gostava muito de techno, porque estava muito ligado à música brasileira. Mas, com o tempo, fui desenvolvendo um enorme gosto por este universo.
À medida que comecei a aprofundar os meus conhecimentos sobre a história da música eletrónica, apaixonei-me ainda mais. Por isso, sempre que faço um set, gosto de mostrar tanto a minha vertente brasileira como o meu lado de apreciador de música eletrónica.
Acredito que tudo isto faz parte da mesma linguagem. Para gerações mais antigas, a música eletrónica está muitas vezes associada apenas ao house ou, talvez, ao disco. Mas, para a nossa geração, vai muito mais além: inclui o funk, o amapiano, o Jersey Club e tantos outros géneros.
Quero que as pessoas vejam os meus sets como algo novo e representativo da nova geração, mas que mantém um enorme respeito pelas raízes e pelas bases da música eletrónica.
O que significa para ti estrear-te no Cool Jazz?
Ainda me custa acreditar que faço parte deste cartaz. O festival reúne nomes incríveis da música e, enquanto DJ e produtor, nunca imaginei estar num evento tão reconhecido.
Há dias estava a pensar em como é extraordinário fazer parte deste cartaz, especialmente porque ainda nem sequer lancei o meu EP de estreia. Mesmo assim, estou ao lado de artistas que admiro muito, o que é verdadeiramente surpreendente para mim.
Sinto-me muito grato. Ainda não consegui parar para processar tudo isto. No ano passado participei noutros festivais e, este ano, vou atuar em dois. No entanto, continuo a ser o mesmo rapaz de 2018 que decidiu não seguir a faculdade e acabou por encontrar o seu caminho neste universo.
Todos os anos recebo convites para partilhar palco com artistas incríveis, e isso continua a ser algo muito especial.
O que pode o público esperar da tua atuação?
Vou fazer a abertura dos Scissor Sisters e quero preparar algo especial para a comunidade.
Este ano assistimos a um grande corte de apoios a vários eventos culturais e iniciativas importantes, sobretudo para a comunidade LGBT+, devido ao investimento direcionado para outros projetos. Compreendo que esses investimentos possam ser necessários, mas a verdade é que muitas pessoas e organizações dependem destes apoios para fazer acontecer projetos fundamentais.
Por isso, gostava que o meu set fosse uma celebração da importância da comunidade e da diversidade. Quero lembrar as pessoas da importância de vivermos em conjunto e de celebrarmos quem somos e todas as identidades que nos rodeiam.
Posso dizer que será um set muito marcado pela cultura LGBT+.
O que achas que torna um DJ set memorável? O que gostavas que o público sentisse?
Neste momento, um DJ set memorável é aquele que consegue provocar nostalgia.
Tenho pensado muito na passagem do tempo. Comecei este percurso aos 21 anos e hoje tenho 27. Na verdade, comecei a tocar ainda mais cedo, mas foi há cerca de seis anos que senti que a minha carreira se tornou real: quando comecei a atuar regularmente, a fazer festas e raves, e quando as pessoas, incluindo os meus pais, perceberam que isto era algo sério.
A nostalgia é muito importante para mim. Gostava que, daqui a alguns anos, as pessoas que estiverem neste set se lembrassem deste momento e pensassem: “Em 2026, eu estive ali e estas músicas faziam-me sentir desta forma.”
A música tem um enorme poder de despertar memórias e emoções. As pessoas vão lembrar-se deste festival, dos artistas que viram e, espero eu, do sentimento que viveram durante o meu set.
Para terminarmos, depois do Cool Jazz, quais são os próximos passos? Há novidades que possas partilhar?
Depois do Cool Jazz, espero abrandar um pouco, porque os últimos tempos têm sido muito intensos.
Neste momento, já não tenho mais datas marcadas em Lisboa. Antes do festival, vou atuar na Madeira e, depois disso, participarei no Cool Jazz.
A seguir, quero fazer uma pausa. Tenho planos pessoais importantes, como casar, e sinto necessidade de viver um pouco mais fora do ritmo constante da música.
A minha vida tem sido feita de viagens, aviões e atuações consecutivas. Preciso de parar um pouco e fazer algo mais humano. Estou um pouco cansado e quero aproveitar esse tempo para recuperar energias.