O cinema português prepara-se para receber, hoje, 10 de setembro, a comédia “Santo António, o Casamenteiro de Lisboa”, realizada por Rúben Alves, conhecido pelo sucesso de A Gaiola Dourada. O filme recupera a tradição dos Casamentos de Santo António, e transforma-a numa história de humor, romance e renovação.
A ação acompanha Carmo e Valentim, dois funcionários da Câmara Municipal de Lisboa, responsáveis há mais de 25 anos pela organização dos Casamentos de Santo António. Perante a ameaça de perderem os seus empregos, os protagonistas são obrigados a encontrar novas soluções para reinventar o evento e garantir a sua continuidade.
O elenco reúne vários nomes conhecidos do cinema e da televisão portuguesa, entre os quais Rita Blanco, Joaquim Monchique, Ana Bola, Maria Rueff e Maria João Bastos, Joaquim de Almeida, Lídia Franco, Rui Mendes, Inês Aires Pereira, Nuno Nolasco, e o ator espanhol Paco León.
Com cerca de duas horas de duração, a produção aposta numa mistura de comédia e romance, tendo como pano de fundo Lisboa e uma tradição que há décadas celebra o casamento e o amor na cidade. Depois da passagem pelos cinemas, o filme deverá também chegar à Disney Plus, reforçando a aposta na divulgação internacional do cinema português.
Acede à entrevista ao realizador Rúben Alves.
O que mais te atraiu nesta história dos Casamentos de Santo António?
O que achei mais interessante nesta tradição é que ela é bastante moderna, contrariamente ao que se pode pensar. Quando peguei neste tema, apercebi-me que é uma tradição que já vem desde os anos 50. As pessoas eram filmadas na preparação do casamento, durante uma semana inteira, na sua intimidade (mas a preto e branco). Achei muito interessante falar sobre isso, porque é o que está a acontecer hoje em dia com os reality shows e as redes sociais. Além disso, vivemos numa sociedade que está cada vez mais individualista, onde as pessoas estão rodeadas de informação a cada minuto. No entanto, sentem-se cada vez mais sozinhas, há uma perda de humanidade. O mesmo se passa com estes dois casamenteiros: têm uma vida muito solitária. Fala-se muito desta cidade em revolução, com uma globalização muito forte por vir. Como é que podemos salvaguardar a essência da cidade estando a evoluir?
Inseri vários temas no filme que achei interessantes e poder fazer rir e emocionar com várias personagens que vêm de sítios diferentes também me atraiu bastante. Tudo isto se passa em Lisboa, uma cidade a que eu tenho muita ligação e da qual gosto muito.
Já apresentavas uma relação muito forte com a portugalidade em A Gaiola Dourada. O que descobriste sobre Lisboa ao fazer este filme que ainda não conhecias?
Passo o ano todo em Paris mas tenho uma forte relação com Lisboa e quando venho, noto que as coisas estão a evoluir. Com este projeto há uma intensidade mais forte e vibrante, que pensava que seria um bocadinho mais tranquila. Sempre achei que esta cidade era bastante melancólica e poética e, de repente, há uma pulsação diferente. Cada vez que venho a Lisboa aprendo algo diferente.





Como foi o processo de transformar uma tradição tão popular numa história de cinema?
O processo foi muito à base de observação. Eu e o guionista Fernando Pérez, entramos mesmo “lá dentro, furamos aquilo” e observamos muito. Acho que o processo consiste em ser sempre fiel à realidade, essa é a chave. Num filme de ficção, podes brincar com isso e cair num clichê. Se fores fiel à verdade, nunca soa a falso porque vem de algo que viste, sentiste e observaste. As pessoas conhecem estes casamentos, temos referências visuais. Colocámos isso num filme, a soar a verdade, mas ao mesmo tempo, demos um acrescento cinematográfico.
É muito trabalho invisível, com o diretor de arte, com as roupas, as personagens, a maquilhagem, é um trabalho de equipa em que dizemos: “estamos a fazer cinema, temos que dar este lado sonhador para ficar bonito mas verdadeiro”. E eu adoro todo esse processo.
Para fazer o filme, ouviste histórias reais e caricatas para conhecer melhor esta tradição. Houve alguma história que te tenha surpreendido particularmente?
Houve bastantes histórias que eles contaram e eu disse “oh my God!”. Mas há uma que me surpreendeu e que está no filme. É sobre um noivo que nunca pode comparecer porque está preso. Lembro-me ainda de um casal que se apercebeu que a noiva estava grávida. Eles tinham de ser muito transparentes na vida deles e esse casal mentiu. Os casamenteiros disseram: “What? Como é que vamos fazer isto? Isso não pode ser!”. Foi uma confusão bastante caricata. Também acrescentamos histórias no filme que inventamos e desenvolvemos.
Passados 13 anos do enorme sucesso de A Gaiola Dourada, como foi este regresso à comédia e à portugalidade?
O meu universo consiste em falar de coisas profundas com uma certa leveza. Na comédia, transmitimos mais facilmente mensagens a sorrir e é fundamental sabermos rir de nós próprios, para podermos evoluir. Isto é algo que está sempre presente no meu cinema. Não é um regresso à comédia porque eu nunca parei. É sim, um regresso à portugalidade. Este projeto fez-me voltar a este lado do país e aos pormenores de ser português, como tinha feito com a Gaiola, há 13 anos.
Queres destacar alguma cena do filme que te tenha marcado mais ao gravar?
Sim, a sequência dos dois personagens principais, interpretados por Joaquim Monchique e Rita Blanco, quando estão sentados no banco à frente da Sé, à noite. Acho que um momento fundamental do filme atravessado por várias emoções. Fala de amizade, solidão, esperança e união. Ao mesmo tempo, a gargalhada que eles dão, para mim, é mesmo o núcleo do filme e foi muito agradável de gravar porque era de noite, não havia ninguém e houve quase uma magia, uma coisa muito melancólica, muito lisboeta.
O que gostavas que o público levasse para casa após ver o filme?
Acho que cada um tem que levar o que quiser. O que eu gostava mesmo era que levassem uma reflexão sobre o que estamos a viver hoje em dia: está tudo a ir muito rápido. Devíamos parar para perceber que estamos cada vez mais sós e dar mais atenção aos que estão à nossa volta, tentar perceber o outro, porque hoje em dia é muito fácil ficarmos sozinhos em casa, atrás de um ecrã ou de uma rede social. Acho que o ser humano tem cada vez mais medo de se confrontar com o outro e isso poderá ser o fim da humanidade. Precisamos de muito mais amor, atenção e compaixão pelo outro. Acho que as pessoas saem deste filme com boa disposição, a acreditar no amor e que com o mesmo, podemos vencer muita coisa.




