Sara Barros Leitão: “Acho que as mulheres nunca estiveram sozinhas” 

Em Nós, Sozinhas, Sara Barros Leitão recupera histórias e testemunhos relacionados com o aborto em Portugal, numa criação que revisita décadas de clandestinidade, mobilização social e luta pelos direitos das mulheres.

O espetáculo parte das redes informais de entreajuda que existiam antes da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O contacto entre mulheres, a circulação de informação e a procura de soluções fora do sistema legal são alguns dos elementos convocados pela atriz e autora.

Com texto, interpretação e encenação de Sara Barros Leitão, Nós, Sozinhas acompanha também o percurso político e social que antecedeu a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, aprovada em referendo em 2007, depois de um primeiro referendo, em 1998, que não produziu alterações à lei.

A peça estará em cena no Theatro Circo em Braga de 18 a 20 de setembro, no Cineteatro Louletano, em Loulé a 22 de outubro, na Casa da Cultura de Ílhavo a 7 de novembro, no Auditório de Espinho a 20 de novembro, e no Teatro-Cinema de Fafe a 28 de novembro. 

 

O título do espetáculo parte de um verso de Maria Teresa Horta. O que encontraste neste verso que te pareceu tão forte para dar nome ao espetáculo?

Acabo muitas vezes por dar aos espetáculos títulos roubados à poesia. Vou escrevendo ao longo do processo, à medida que vou escutando a equipa e que vamos investigando e trabalhando. Quando a ideia começa a surgir, é preciso dar um nome à ideia para que as pessoas possam falar daquilo. E, por isso, acabo por encontrar muitas vezes na poesia esse lugar. Acho que a poesia já disse tudo o que nós precisamos de dizer e de formas bonitas, feias, horríveis, maravilhosas. 

O verso original é “Nós, mulheres, sozinhas”. Quando o li, foi muito impactante para mim, porque o verso só por si é incrível. Eu quis tirar o “mulheres” do título, porque acho que nem sequer é preciso, a partir do momento em que o “sozinhas” já está no feminino. E esse verso, para mim, resume a grande solidão que é a decisão de avançar ou de parar. Independentemente de estarmos acompanhadas, de termos uma relação que queremos ou de termos condições financeiras, é uma coisa que acontece no nosso corpo. 

Mas, ao mesmo tempo, nessa profunda solidão, há também uma enorme rede solidária, de afetos, que foi muito forte nos tempos da clandestinidade. Hoje, que é legal (a interrupção voluntária da gravidez), há sempre alguém que nos dá boleia até lá, que nos traz, que cuida de nós quando estamos em casa, à espera de que a hemorragia aconteça. Mesmo que passemos por tudo sozinhas, estamos sempre juntas na ideia de que são milhares as mulheres que já passaram por isso e que já pensaram em fazê-lo. O medo de engravidar é uma questão transversal a todas as mulheres quando não desejam uma gravidez. E, portanto, há qualquer coisa de completamente coletivo a partir dessa ideia.

 

Para fazer este espetáculo, fizeste uma investigação sobre a história do aborto em Portugal. Porquê a necessidade de fazê-lo agora?

Para o ano assinalam-se os 20 anos da despenalização da lei, do segundo referendo e achei que era importante. Portugal teve poucos referendos e, por isso, é também meio inédito. Eu queria ter um espetáculo que, quando chegasse essa efeméride, pudesse ocupar o seu espaço nos palcos, resgatando aquilo que foi a história que se fez até lá. 

Acho que vivemos tempos em que os direitos parecem assegurados e que nos tentam fazer crer que a política está completamente dissociada da vida e da mobilização. E eu não acredito nisso. A IVG não foi fruto de uma conquista do espaço político na Assembleia, ela foi e é, sobretudo, uma luta da rua, das organizações feministas, das mulheres católicas e progressistas. E foi por causa dessa luta que se conseguiu que esta lei chegasse onde chegou. Ela demorou 34 anos em democracia, foram mesmo muitos anos de conquista. 

Também sinto que há uma perda de memória desse período, e as pessoas que fizeram esta luta estão agora a reformar-se. A maior parte dos médicos que recebia mulheres vítimas de um aborto clandestino está agora a reformar-se. E a consequência disso é termos muitos novos obstetras e ginecologistas objetores de consciência, porque nunca lidaram com mulheres que entraram pelas urgências naquelas condições. Há muitos relatos de médicos que ainda sabem os nomes das mulheres, porque aquilo os marcou profundamente, e que, mesmo sendo contra o aborto, chegaram a ver mulheres que vinham com o cabide preso ao corpo. Numa situação daquelas, não pensas se és a favor ou contra. Pensas: isto não pode acontecer. Essa falta de memória faz com que haja agora retrocessos nos nossos direitos.

Nós, Sozinhas fala sobre os julgamentos, os dois referendos e a mobilização da sociedade civil que conduziram à despenalização da IVG. O que mais te surpreendeu durante a investigação?

O que mais me surpreendeu foi uma coisa que só descobri por causa deste espetáculo: a IVG foi aprovada na Assembleia da República, por nove votos, e podíamos ter a lei desde 1997. Mas, nessa noite, o primeiro-ministro, António Guterres, do PS, e o líder da oposição, Marcelo Rebelo de Sousa, do PSD, fizeram uma chamada telefónica e acordaram que iriam pôr o país num referendo, porque eram os dois católicos contra o aborto. Conseguiram travar uma decisão da Assembleia da República, porque alguns deputados tiveram de mudar o seu sentido de voto e votaram a favor do referendo. E isso gerou um atraso de 10 anos. De 97 a 2007. 

Foram anos de atraso e de muitos julgamentos, de muitas mulheres que tiveram a sua vida devassada, de prisões, de condenações, de tribunal, de clandestinidade e de morte. Houve mulheres que morreram que não precisavam ter morrido, filhos que ficaram órfãos que não precisavam ter ficado, se a lei tivesse passado nessa altura. 

Eu desconhecia esta parte da história. Para mim, isso foi o mais surpreendente.

 

Ouviste várias histórias e testemunhas para a construção deste espetáculo. O que mudou na tua percepção sobre o tema?

Na peça, conto que a grande mudança que ocorreu em mim faz parte da minha biografia e é também um dos motivos pelos quais quis fazer esta peça. Eu, em 2007, no referendo, teria votado contra o aborto se tivesse idade para votar. Então, a primeira coisa que mudou em mim ao longo destes anos foi precisamente a minha posição sobre o aborto. Isso aconteceu quando saí de casa e descobri o mundo, a realidade e que as coisas são muito mais complexas do que me faziam crer. 

Estes testemunhos são interclassistas e intergeracionais. São mulheres dos 16 aos 60 anos e de todas as classes sociais que fazem abortos. Portanto, o aborto é transversal a todas nós. As que já fizeram, as que pensaram em fazer, as que querem fazer, as que não conseguiram, as que morreram. Independentemente das condições ou da idade que tenhas. Depois, tudo depende do dinheiro que tiveres. A lei demorou tantos anos a ser aprovada, porque as elites que governavam o país sempre tiveram acesso ao aborto seguro e nunca precisaram de uma lei que as protegesse. É curioso que elas nunca se sentaram no tribunal, foram sempre as pobres. 

Aquilo que mudou em mim com este espetáculo foi a reafirmação de que acho que é preciso melhorar a lei. O aborto continua a ser ainda uma dificuldade no nosso país, mesmo com a lei que temos. Então é preciso melhorá-la.

 

Como foi o processo de transformar uma investigação histórica, feita de documentos, testemunhos e memórias, em matéria teatral? Como decidiste o que devia entrar no espetáculo e o que ia ficar de fora?

É muito difícil de explicar porque são muitos meses. Nós fazemos uma cronologia, começamos a colecionar histórias, depois temos de encontrar um esqueleto de espetáculo, qual é a linha condutora, o que fica e o que sai. São momentos de grande tensão nessa decisão. E vou testando e fazendo, mas escrevo sempre de uma forma muito fluida. O computador está sempre na sala de ensaio e vou sempre escrevendo mais um bocadinho. E depois vou para casa tentar perceber qual é a energia com que eu estava, que palavras é que podem surgir. E depois há um ato emocional na minha ligação às histórias, daquilo que eu acho que isto tem mesmo que estar, e outro que é o próprio espetáculo que decide, que diz que agora precisa disto ou daquilo. Portanto, é o próprio espetáculo que acaba por decidir.

És simultaneamente autora, encenadora e intérprete de Nós, Sozinhas. Num espetáculo sobre tantas mulheres e tantas vozes, como se constroi uma peça a solo sem apagar essa multiplicidade?

Sempre soube que o espetáculo tinha de ser um monólogo de uma única mulher, precisamente porque é tudo sobre o nosso corpo e é uma decisão só nossa. Uma mulher que quer fazer um aborto vai fazê-lo. Quer possa, quer não possa, ela vai arranjar a forma de o fazer. E, por isso, eu precisava de ter esse corpo, sozinha em cena. E tinha de ser o meu corpo a contar esta história, mas queria resgatar esse lado coletivo. 

Acho que encontrei alguns dispositivos que ajudam a que entrem várias vozes, a que haja essa polifonia de relatos e de épocas. Há saltos no tempo que também ajudam a perceber que a coisa não é só sobre uma pessoa. Há cenas mais históricas, cenas de relatos e cenas de julgamentos. Elas são muito distintas entre si. Isso também ajuda a trazer esse lugar de muita diversidade.

 

O que é que uma peça de teatro consegue fazer com este tema, que um documentário, um livro de História ou uma reportagem não consegue?

Qualquer pessoa que pegasse neste tema iria fazer coisas diferentes e, felizmente, há mais pessoas a pegar neste tema, e, de certeza, que vão para caminhos completamente distintos. Acho isso mesmo muito belo e muito entusiasmante. Cada artista trabalha a partir da história e descobre-se nela. 

Este espetáculo pode propor, ao contrário de um livro de história ou de um documentário, uma relação com os factos, com a verdade, que é muito mais livre, porque não tenho de citar fontes. Apesar de partir de uma história real, há uma ficção que o espectador decide aceitar, que viaja comigo, emociona-se, diverte-se, imagina e completa coisas. Isso é um lugar muito lúdico, de muita liberdade, porque é um jogo. 

E não há um acordo de que o espectador tenha de perguntar onde é que está a verdade de cada coisa. Se, depois disto, as pessoas repensarem a sua posição sobre alguma coisa, se reafirmarem as suas posições, se ficarem com mais argumentos para discussões, se quiserem mobilizar-se ou filiar-se num partido, numa associação, já é uma responsabilidade delas. A minha é só a transposição da vida, da realidade, dos factos, das histórias, para um objeto artístico. E é esse o lugar que quero ocupar.

 

Depois de tudo o que investigaste e de teres construído esta peça, o que significa hoje para ti “não estarmos sozinhas”?

Acho que as mulheres nunca estiveram sozinhas e a história das mulheres foi sendo escrita tentando convencer-nos de que estamos mais sozinhas do que realmente estamos.

As mulheres sempre conseguiram encontrar esses lugares de encontro, mesmo das formas mais imaginativas possíveis. Foram convencendo-nos de que, quando as mulheres estão juntas, falam mal e são más umas para as outras. Por exemplo, os cabeleireiros são sempre lugares onde as mulheres falam sobre as suas vidas e acho muito importante quando isso acontece. 

E também acho que esse lugar de acharmos que estamos sozinhas é um projeto muito neoliberal, para nos desmobilizar das causas, das lutas e da empatia com o outro. Esse projeto neoliberal afasta-nos do sindicalismo, dos movimentos associativos e faz-nos ser um bocadinho mais escravos do trabalho, porque achamos que temos de trabalhar muito para vencer. 

Acho que o futuro passa por nos organizarmos e mobilizarmos em rede, porque as transformações só existem a partir desses lugares coletivos. Não acredito em estrelas que, sozinhas, conseguem mudar o mundo. Tento trazer uma perspetiva completamente abrangente do referendo do “sim”. Juristas, médicos, religiosas, feministas, homens, mulheres, pessoas que estão em espectros políticos opostos, de norte a sul do país, mobilizaram-se por uma coisa só. E isso só mostra que estamos em rede, não estamos assim tão sozinhas.

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