Sara Correia: “Quem entende o fado, entende a dor”

Dois anos depois de “Liberdade”, Sara Correia regressa com “Tempestade”, um álbum escrito inteiramente por mulheres. Sara é uma artista que não se lembra de um único dia sem intensidade e sem fado na sua vida, uma música que a acompanha desde a barriga da mãe e que se tornou a sua forma de sentir, cantar e atravessar a vida.

O álbum chega antes do concerto esgotado na MEO Arena, num momento em que a artista se afirma como uma das vozes mais marcantes da sua geração e um talento em ascensão em Portugal. Ainda assim, “a miúda de Chelas” não traça planos rígidos para o futuro e confia que tudo o que é seu encontrará o caminho até si, desde que seja através do fado, a música que a escolheu para ser sua mensageira.

 

Dois anos depois de “Liberdade”, chega “Tempestade”. Como descreves este novo álbum?

Este álbum chama-se “Tempestade” por todas as dificuldades que fui atravessando ao longo da minha vida, sobretudo no último ano, quando fui operada às cordas vocais e não sabia quando voltaria a cantar.

Consegui reerguer-me e o disco fala exatamente disso: da força feminina, da força da mulher, dessa força interior que nos permite ultrapassar obstáculos mesmo quando tudo parece incerto. Mais do que a palavra em si, “Tempestade” representa uma transformação pessoal.

O primeiro sinal deste álbum foi o primeiro single, “Avisem Que Eu Cheguei”, com o refrão escrito por Carolina Deslandes: “avisem que eu cheguei, invadi a cidade, para lhes mostrar porque é que toda a Tempestade tem nome de mulher”.

 

O que é este conceito de “tempestade tem nome de mulher”?

Na minha opinião, não há ninguém no mundo como as mulheres no que toca à capacidade de resistência e superação. Durante muito tempo, a mulher não teve espaço para se impor e mostrar a sua força. Hoje sinto que isso está a mudar, as mulheres têm cada vez mais voz e mais poder.

Acredito profundamente que a mulher tem uma força desmedida. E, por isso, as tempestades só podiam ter nome de mulher.

 

Foi por isso que quiseste incluir textos de mulheres como Carolina Deslandes, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outras?

Exatamente. Este disco é uma ponte entre passado, presente e futuro. Quis compositoras de hoje, mas também mulheres que já não estão cá fisicamente, mas que nos deixaram um legado fabuloso.

Acredito que estas mulheres são a força deste álbum. Dou voz a histórias que me fazem sentido e que mostram a força da mulher em todas as suas dimensões.

 

Como é que escolheste as autoras a quem querias dar voz?

Muitas delas eu já conhecia pessoalmente e sei bem as mulheres que são. Tenho muita pena de não ter conhecido a Sophia e a Florbela nunca, mas conheço a obra delas.

As compositoras conhecem a mulher e a artista que eu sou; eu conheço as mulheres que elas são. Essa troca tornou este disco muito especial.

 

Que impacto pessoal sentiste ao gravar textos tão intensos?

Eu já sou intensa na vida, tudo o que canto tem de ser com intensidade, porque eu não sei ser de outra maneira. Ao longo dos anos fui também descobrindo que, por baixo dessa intensidade, existe uma calmaria. É esse equilíbrio que me tem tornado uma mulher mais madura. Continuo intensa, mas sem medo de mostrar o que sinto.

Não precisamos de ser só uma coisa, podemos ser várias. E não temos de esconder os nossos sentimentos. Só temos de ser verdadeiros, honestos e genuínos.

É isso que o público vai sentir ao ouvir o álbum?

Eu acredito que sim. Quero muito que este álbum seja um farol de luz e que as pessoas possam refugiar-se nele. Acho que é isso que todo o artista deseja: que as suas canções façam bem a alguém. Que tragam, acima de tudo, paz.

 

As canções são muito diferentes entre si: falam de amor, ódio, saudade e superação. Foi também um reflexo da fase da tua recuperação?

Eu canto há muitos anos e sempre estive de braço dado com o fado. Quem entende o fado, entende a dor. Nós desabafamos muito do que temos cá dentro através do canto.

Sempre soube que um dia faria um disco onde mostrasse essa parte mais pessoal. Depois da operação foi ainda mais revelador. Percebi que a voz não é minha. Se alguém ma deu, foi para eu continuar a cantar para os outros. Eu não canto para mim, canto para o meu público.

 

Disseste que quem entende o fado entende a dor. Tu cresceste em Chelas, onde o fado fazia parte do quotidiano, sentes que essa ligação começou mesmo desde sempre?

Eu vim do fado. Nem me lembro do dia em que começou. Desde a barriga da minha mãe que vou aos fados. Sinto que foi o fado que me escolheu a mim. Eu acho que o fado é que escolhe os seus mensageiros. E talvez por cantar a dor há tantos anos, às vezes ela se torne mais fácil de ultrapassar. É a minha terapia. Enquanto canto, estou a curar-me.

 

Se o fado é a tua terapia, parece estar a resultar, porque tens vindo a afirmar-te cada vez mais no panorama da música portuguesa. Como estás a viver este momento da tua carreira, sendo hoje reconhecida como uma das vozes mais marcantes da tua geração?

Eu sinto que o segredo é sermos nós próprios. As pessoas conhecem a Sara artista, mas também conhecem a miúda de Chelas, a minha história, e de onde eu venho. E isso nunca vai mudar, tenho os pés muito assentes na terra.


O concerto na MEO Arena traz-me uma humildade acrescida. Todos os dias acordo e lembro-me do caminho que fiz para chegar aqui, de tudo o que ultrapassei e do trabalho que deu.


Nada disto acontece por acaso. As coisas dão trabalho, digo isto muitas vazes, sobretudo aos jovens. É preciso trabalho, foco, dedicação, e um bocadinho de sorte também. É preciso foco, dedicação e um bocadinho de sorte, sim, mas também é preciso escolher o caminho certo e entregarmo-nos verdadeiramente àquilo que amamos. Eu tive a sorte de ser no fado. O fado é a minha religião, a minha fé. É aquilo em que acredito.

 

O concerto na MEO Arena é no dia 7 de março e está esgotado. Que expectativas tens para este espetáculo?

Vou apresentar o meu novo disco pela primeira vez ao vivo, só isso já é especial.

Ter uma sala cheia é um privilégio enorme. O espetáculo vai ser uma surpresa, porque tudo é novo e foi preparado com muita dedicação. Mas, acima de tudo, vai ser intenso, carregado de várias emoções ao mesmo tempo, isso posso prometer.

 

Dizes que sabes muito bem de onde vieste. E agora, olhando para o futuro, para onde é que queres ir?

Primeiro, vou ter as minhas férias merecidas (risos), não tenho férias há quase dois anos. Preciso de descansar e recarregar energias. Depois disso, há muitos concertos, incluindo datas internacionais e o Super Bock Arena no final do ano.

Eu vou para onde a vida disser que tenho que ir. Vou continuar a ser a mesma pessoa, a trabalhar e a cantar para o meu público. Não faço muitos planos. Aquilo que é para mim vem ter comigo, sempre com foco e dedicação, mas, acima de tudo, sendo feliz a fazer o que faço.

 

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