Maria Seixas Correia é uma comunicadora irreverente, que não tem medo de olhar de frente para temas difíceis como a saúde mental e a morte. Com o seu primeiro livro, “Estrela”, traz uma escrita direta e intensa que desafia estigmas e convida o leitor a sentir-se menos sozinho.
Nas redes sociais, Maria conquistou uma comunidade fiel graças à sua autenticidade e coragem, criando um espaço onde a vulnerabilidade é também uma forma de força.
Este livro é o reflexo da sua visão única e da vontade de quebrar tabus, convidando o leitor a uma reflexão honesta sobre os desafios que muitos preferem ignorar.
“Estrela” é o teu primeiro livro. Quando e como surgiu a vontade de o escrever?
Sempre tive vontade de escrever — um livro, uma música, guiões… adoro escrever. Depois de ser mãe, senti esse impulso, quase como uma “obrigação”. Tinha muitas ideias na cabeça e decidi partilhá-las na forma de um livro.
É um livro curto, mas intenso, com personagens marcadas por diferentes perturbações mentais. Que temas te interessava mesmo abordar nesta história?
A morte – tanto no sentido literal como figurado – e as perturbações mentais, abordadas de forma realista, sem qualquer romantização.
Que parte da escrita foi mais difícil: começar, continuar ou terminar?
Terminar. Tive receio de terminar e ficar um livro tão pequeno. Mas pensei: já não tenho mais nada para dizer, não vou inventar só para ter mais páginas. Já li vários livros fascinantes com poucas páginas – não estou a dizer que o meu seja assim, porque, honestamente, não tenho essa perceção. Sou péssima a “vender” o livro.
Escrever sobre emoções reais, mesmo que ficcionadas, deixa-te mais vulnerável?
Senti muito isso, porque neste livro as pessoas têm acesso total ao que está na minha cabeça. Uma pessoa que leu o livro disse-me que escrevi coisas que ela tem vergonha de pensar. Mesmo que muitos desses pensamentos não sejam meus, podem ser interpretados como tal, por isso tive de fazer as pazes com isso.
Sentiste liberdade ou medo ao expor assim os teus pensamentos num livro?
Sinto liberdade sempre que consigo vulnerabilizar-me. O medo também existe, mas tento que não me condicione.
A saúde mental tem sido um tema presente no teu trabalho, tanto nas redes como agora neste livro. O que ainda falta normalizar nas conversas que temos sobre isto?
A meu ver, quase tudo. Fala-se muito sobre saúde mental, mas quando alguém diz que é bipolar ou sofre de depressão, a maior parte das pessoas ainda reage de forma estranha, como se fossem “maluquinhos”. Muitas pessoas têm vergonha de admitir no trabalho para não serem prejudicadas, por exemplo. Dizer que não vais trabalhar porque estás ansioso é muito diferente de dizer que não foste porque estiveste a vomitar a noite toda. Ou tirar uma baixa psiquiátrica. Ou mesmo ir ao psiquiatra – ainda não é visto da mesma forma que ir ao psicólogo. Existe um estigma muito grande.
A tua linguagem visual também está presente em “Estrela”, através das ilustrações da Elisa Rezende. Como foi trabalhar esse lado mais sensorial do livro?
Foi maravilhoso. Sou grande fã do trabalho da Elisa – até tenho tatuagens dela. Quando percebi que este livro só faria sentido com ilustrações, pensei imediatamente nela. Pedi que lesse o livro e que criasse as ilustrações com total liberdade criativa, sem qualquer influência da minha parte. Amei todas as ilustrações desde o primeiro momento.
Tens uma comunidade muito próxima nas redes. Como sentes que reagiram ao lançamento do livro?
Muito bem. Muitas pessoas ficaram surpreendidas.
Se tivesses de descrever “Estrela” numa palavra, qual seria?
Perturbador.
O que esperas que o leitor sinta com este livro?
Adoro quando as pessoas me dizem que, depois de lerem o livro, deixaram de se sentir tão estranhas e perceberam que têm os mesmos pensamentos. Espero que o leitor se sinta visto.