2025 | Quetzal
Que não se julgue um livro pelo título. O leitor menos atento às histórias que rodeiam os livros pensará ter nas mãos um romance teológico em que se medita sobre Deus e a transcendência. Poderá até imaginar uma ficção sobre alguma experiência religiosa. No entanto, Deus é uma personagem ausente, um horizonte para refletir sobre os temas da obra: a memória, a culpa, a redenção, mas, sobretudo, a finitude.
No centro do romance está o poeta e geólogo de profissão e paixão Leopoldo G. Borges — uma discreta homenagem de Agualusa ao poeta senegalês Léopold Sédar Senghor. Ao descobrir que tem poucos meses de vida, Leopoldo compra uma velha igreja abandonada no deserto do Namibe para aí se isolar. O lugar que deveria ser um espaço de comunidade e liturgia passa a refúgio silencioso de um homem que continua a registar, nos seus diários, poemas, reflexões e memórias e que espera a morte. A igreja deixa de acolher fiéis para acolher uma consciência cheia de interrogações sobre a vida e a morte.
Leopoldo era um apaixonado por geologia. Na infância, colecionava pedras e fósseis; depois, aprendeu a ler as camadas da terra. Nos últimos meses da sua existência, passou a escavar uma matéria muito mais difícil do que a pedra: as memórias que lhe foram moldando a alma. Camada a camada, escava uma recordação que encobre outra que encobre outra que encobre outra. Um verdadeiro trabalho de arqueologia íntima. Geologia e biografia.
Há outra personagem que não pode passar sem referência: o deserto do Namibe. Não se trata de um cenário exótico de um postal africano. É uma personagem observada e que observa, que enquadra a reflexão através do silêncio. Na Bíblia, o deserto é o lugar onde se pode encontrar Deus. Em Camus, é o lugar onde o homem percebe que talvez esteja sozinho. Agualusa aproxima-se de Camus sem abdicar da dimensão espiritual da paisagem.
O registo de escrita também é contido. A linguagem, fluída e poética, acompanha a lentidão da narrativa, já que o mais importante acontece dentro da consciência de Leopoldo. O leitor mais apressado poderá sentir que alguns episódios se prolongam mais do que o necessário e que algumas reflexões repetem intuições. No entanto, a demora serve o ritmo contemplativo da obra. O livro não poderia ser escrito de outra maneira.
Gaia, a filha desaparecida. É ela que impede o romance de se transformar num exercício filosófico. A culpa e o remorso de Leopoldo têm este rosto perdido. Deus a entrar, de novo, na narrativa. É o nome para tudo o que escapa à vontade do Homem. Não fora a figura da jovem e o romance poderia tornar-se numa parábola espiritual. Ao invés disso, Agualusa explora a dimensão humana.
Deus é, afinal, metáfora para tudo o que fica depois de desaparecermos. Para uns, as pessoas que amámos; para outros, a escrita. De qualquer forma, para todos, a memória da forma como tocámos outras vidas.
Tudo sobre Deus mantém os temas frequentes em Agualusa. A linguagem, apesar de delicada, emoldura o habitual humor discreto e continuamos a reconhecer a permanente oscilação entre realidade e invenção — recorde-se a conversa que o protagonista tem, no deserto, com Jorge Luís Borges. No entanto, este romance é mais recolhido, um dos mais íntimos do autor, talvez por ter sido escrito para lidar com o mistério da morte. A proximidade entre Agualusa e Leopold é evidente e somos tentados a uma leitura autobiográfica. Autor e personagem aproximam-se sem nunca coincidirem. É o próprio Agualusa que insiste em lembrar que o romance é pura ficção. Mas o que pensar da carta que Leopold escreve ao seu amigo Mia Couto, grande amigo de Agualusa?
O título, apesar de enganador, não defrauda: em vez de explicar Deus, explica os homens.
Não sei se Leopoldo terá encontrado respostas para as suas inquietações, mas acredito na serenidade que o invadiu na réplica subterrânea da capela. Escavou a pedra e talvez tenha chegado à alma, a geologia da memória.
«E agora?
Agora sou este corpo
que, num gesto distraído, Deus esmagou sob
[os seus pés cansados.
[…]
Além disso, escrevo
para que o deserto saiba
que alguém,
nestes tumultuosos dias do fim,
amou loucamente toda a sua insubmissa
[imensidão.»

Crítica de Paula Campos