“Vendavais”: Picas estreia-se em álbum com um retrato cru dos 20s

Depois de vários singles que revelaram diferentes lados da sua identidade artística, Picas lança Vendavais, o seu álbum de estreia, disponível hoje. Um disco profundamente pessoal, marcado pelas inquietações, ansiedades e descobertas que acompanham a entrada na vida adulta, mas também pela vontade de afirmar uma voz própria dentro da música portuguesa.

Entre canções de amor, desamor, coming of age e críticas às pressões da indústria musical, Picas constrói um projeto coeso que nasce da escrita íntima e da observação do mundo à sua volta. Nesta conversa, a artista falou-nos sobre a origem do seu nome artístico, o percurso até à música, o processo de criação de Vendavais e as influências que moldam a sua escrita, numa fase em que sente estar, finalmente, a descobrir quem é enquanto artista e pessoa.

 

De onde surge o teu nome artístico “Picas”?

Não sinto que fui eu que escolhi o meu nome artístico porque é o que sempre me chamaram em casa e na escola. É a minha alcunha que é um diminutivo de “pequena”. Eu fui ao The Voice com o nome Maria Casal Ribeiro e na altura, quando comecei a lançar as minhas músicas originais, estava na dúvida sobre qual seria o nome com que me queria apresentar. E lembro-me de ter uma conversa com o Agir em que ele me disse: “o teu caso é um daqueles casos em que o teu nome já foi escolhido por ti, tu não vais poder escolher o teu nome artístico porque toda a gente se refere a ti como Picas. Mesmo aqui no meio da música, quando alguém diz “a Picas”, as pessoas sabem quem é. Maria Casal Ribeiro é um nome mais genérico, que as pessoas não associam tanto a ti”. E ficou assim escolhido.

 

De onde veio esta vontade de querer fazer música?

Eu sempre amei música, sempre ouvi muita música mas não via isso como uma possibilidade profissional porque na minha família ninguém é músico. Ou seja, eu vejo pessoas à minha volta que hoje em dia são meus colegas da indústria e muitos têm pessoas na família que também já eram músicos, ou os pais já estavam na indústria, ou andaram na música desde pequeninos e já estavam muito dentro do meio. Mas esse não é o meu caso. Na minha família ninguém é musical e então eu não cresci com essas referências. E quando não se tem uma referência próxima de alguém que faz isso, fica mais difícil porque parece mais longínquo, mais inalcançável. Nem colocava isso como uma hipótese, achava que a minha vida profissional ia ser ligada à escrita.

Sempre amei escrever, então fiz o meu percurso todo pela escrita. Fiz o secundário em Humanidades e depois fui para a Ciências da Comunicação. Entretanto, no secundário, comecei a aprender a tocar guitarra sozinha, e como eu adorava escrever, comecei a aprender a tocar a guitarra para escrever coisas minhas. Esse era o desejo que eu tinha. Ou seja, comecei a aprender a guitarra porque já tinha vontade de escrever as minhas canções, não propriamente para estar a tocar as canções dos outros. No entanto, era uma coisa muito privada na minha vida, porque eu era um pouco envergonhada e, por isso, era algo que eu fazia e nem mostrava. 

Mas entretanto, o “bichinho” estava a tornar-se cada vez maior e a vontade de querer fazer música começou a ocupar a minha cabeça. Na faculdade, começou a tornar-se mesmo muito insuportável e eu pensei que tinha que fazer alguma coisa. Então, inscrevi-me paralelamente no curso de jazz do Odd Club, e aí já comecei a conviver com mais pessoas do mundo da música, a ter mais referências, a perceber que, se calhar, não era assim tão inalcançável e que era algo que eu podia tentar. 

Tens um álbum a caminho, que estará disponível no dia 8 de maio, e chama-se Vendavais. Qual dirias que é o conceito ou o tema geral deste álbum? 

Acho que o álbum toca em vários temas.

Falando aqui sobre o título do álbum, na música “Amor e Guerra” eu tenho uma frase em que eu digo, “Moram em mim vendavais” e eu já tinha o álbum, já tinha as músicas todas, correspondentes a uma fase da minha vida mas não sabia que nome lhe deveria dar. E depois, na verdade, quem ouviu o álbum todo e me sugeriu que este fosse o nome do álbum, foi a minha irmã. Ela ouviu e disse: “Eu acho que a música Amor e Guerra é uma música mesmo forte no teu álbum, com uma mensagem forte, e eu acho que ‘Vendavais’ era um bom nome para o teu álbum porque acaba por passar esta ideia de uma fase tumultuosa.” 

E eu também acho que é uma fase que eu sinto que é muito associada a esta fase dos 20s, estas crises existenciais de estarmos a descobrir quem somos e a tornarmo-nos adultos. 

Achei que representava bem também a fase que eu vivi enquanto estava a compor este álbum que toca em vários temas mais turbulentos, mais ventosos. Ao mesmo tempo, também tem um pequeno trocadilho com as palavras “Venda” e “Vais”, que toca no tema que abordo na canção “Popstar”, que tem muito a ver com as pressões da indústria no que toca a ser “vendável”.

Em termos de conceito, acho que toco em vários temas. Tenho, obviamente, canções de amor e canções de desamor, mas também tenho vários temas muito relacionados com coming of age. Por exemplo, a “Medo”, que eu acho que fala muito sobre os medos que começamos a sentir na vida adulta. De que forma o medo nos impede de seguir os nossos sonhos e nos retrai.

 

Na música “Popstar”, sentes que estás a fazer uma crítica à sociedade e ao facto de uma popstar ter de se comportar de certa maneira? Ter de ser “Agradável e agradecida”?

Sim, sem dúvida que é a canção mais provocativa, nesse sentido. E essa canção é, claramente, uma resposta a uma pressão que eu senti ao começar a minha carreira musical. Quando comecei a gravar e a fazer aquilo que seria este álbum, tinha acabado de sair do The Voice e estava a começar, por isso ainda estava a amadurecer. E estavam sempre a dizer-me: “Não, tem que ser assim”, “devias fazer isto”, “devias fazer aquilo”… Muitas receitas e muitas opiniões de como nos devemos vestir, como devemos falar, o que devemos dizer, como devemos parecer, como nos devemos posicionar. E então, esta música é um pouco sobre essas imposições todas. E acho que se sentem ainda mais na indústria da música, e se calhar em todas as indústrias, quando se é mulher. Porque ainda há mais coisas às quais temos que corresponder, na parte da imagem, em tudo. 

 

Qual achas que foi o maior desafio na criação deste álbum para ti? 

O maior desafio foi exatamente ser o primeiro álbum. Eu sempre gostei de escrever mas uma coisa é escrever e gravar com o meu telemóvel algo simples só com guitarra e voz. Outra coisa é ir para o estúdio e perceber que uma canção pode ser dez canções diferentes, dependendo da maneira como é produzida. Então, eu acho que isso é muita informação, muita tomada de decisão e é um desafio. Porque num primeiro álbum ainda te estás a descobrir: como queres soar, sobre o que queres falar e abordar.

Acho que um artista, ao fazer um primeiro álbum, se está a construir, está a passar por um amadurecimento gigante. Foi isso que senti, que foi uma experiência em que eu aprendi imenso.

No dia em que quiser fazer um segundo álbum, o meu ponto de partida já será completamente outro. Já vou pensar “Agora há muitas coisas que eu já sei”.

 

Consideras pegar nos “inputs” do público sobre um trabalho e aplicá-lo noutro?

Sim, claro. Eu escrevo para mim mas é super bom quando isso chega aos outros. Por exemplo, a “7 + 7 = 14” foi uma música que correu muito bem e eu sei que as pessoas gostaram muito.

Isso fez-me perceber uma coisa também: nós precisamos de pensar sobre o que está a acontecer no mundo mas, ao mesmo tempo, está tanta coisa a acontecer que também precisamos de um escape e de ter uma música divertida. E eu acho que as pessoas gostaram dessa música por isso também. Por ser uma canção que tem sentido de humor, que as pessoas consideram que é divertida e isso também foi um insight bom de perceber, e sim, acho que se vai respondendo também ao feedback.

Seis das músicas do álbum já foram antecipadas como singles. Em que momento te apercebeste que funcionariam bem em conjunto formando um álbum?

Desde o início que todas pertenciam ao mesmo trabalho que fui lançando para ir mostrando o que estou a fazer. E eu acho que o álbum está coeso, tem coisas diferentes, mas eu sinto que é coeso, que corresponde a uma fase da minha vida, e que mesmo em termos de produção também tem essa coerência. Mas é engraçado para mim: no outro dia estava a ouvir e a pensar na ordem pela qual eu as escrevi e as primeiras músicas que eu escrevi foram as de desamor como a “Nos Meus Lençóis”, a “Tatuagens”, a “Última vez” e a “Promessas”. Depois acabei por escrever a “Amor e Guerra”, a “Medo”, que também falam sobre uma coisa mais pessoal, mais minha. De seguida, a “Priscila”, onde comecei a tocar em mais temas como o empoderamento feminino, que foi algo que mexeu comigo. E também a “Popstar”. Sinto que consigo ver crescimento pessoal dentro do álbum.

 

Costumas escrever mais a partir de experiências pessoais ou também crias narrativas fictícias?

Acho que eu escrevo mesmo sempre sobre coisas muito pessoais. A “Medo”, por exemplo, fala sobre ansiedade e eu sou uma pessoa que sofre muito de ansiedade, de overthinking e isso, às vezes, acaba por nos levar a um sítio em que criamos vários medos na nossa cabeça. Por vezes, medos de coisas que nem existem.

Então, isso é uma coisa super pessoal, é uma canção que pega nisso, numa característica minha que eu não percebo e escrevo sobre isso que é algo que eu sinto. 

Por outro lado, temos a canção Priscila. Esta canção não é diretamente algo que eu vivi. Foi inspirada numa personagem que é Priscila Presley. Uma das minhas realizadoras favoritas é Sofia Coppola. Ela fez este filme sobre a Priscila que é a mulher do Elvis, como fez, por exemplo, também sobre a Maria Antonieta, mulher do Luís XIV. Ou seja, ela pega em personagens femininas que ficaram na sombra do homem. Esse filme mexeu comigo. Fiquei com uma sensação como se quisesse ser amiga daquela personagem para a poder aconselhar, para poder conversar com ela. E como não podia, escrevi uma canção sobre isso. 

Ou seja, acho que a inspiração vem, ou do que eu estou a viver, ou de coisas que vejo e mexem comigo.

 

Quem dirias que são as tuas maiores inspirações musicais? 

Tenho sempre imensa dificuldade em dizer isso porque eu ouço mesmo todos os estilos de música. Tenho referências de jazz que adoro mas claro que o meu projeto não é jazz. 

Em termos de lírica, a minha maior inspiração é o Alex Turner, dos Arctic Monkeys porque eu adoro uma coisa que ele faz: ele escreve com coisas tão mundanas do dia-a-dia e da vida. Ou seja, eu adoro que uma canção seja poética mas nas coisas mundanas do dia-a-dia. Adoro isso na poesia. Quando escrevo as minhas canções gosto de ser muito específica sobre o que eu escrevo, ter partes descritivas, sensações descritivas. 

Em termos de sonoridade, eu ouço imensa música e quando gosto de como soa uma parte, guardo-a porque, por exemplo, adorei como umas guitarras soam em certa música ou porque a bateria está com uma intensidade fixe. Tenho muitas referências nesse sentido.

Ultimamente, ando mesmo muito viciada na banda WetLeg. Tem sido o meu grande vício. Exatamente por aquilo que eu mencionei antes sobre a “7+7=14”. Eles têm letras mesmo estranhas e não se levam demasiado a sério, são mesmo engraçados. Eu acho que isso é uma grande arte. 

Uma compositora portuguesa que eu adoro mesmo é a Luísa Sobral porque ela tem, realmente, uma outra coisa que eu acho maravilhosa que é a vulnerabilidade.

Isso inspira-me. Ela vai a sítios de vulnerabilidade maravilhosos. Ainda agora ouvi o álbum de Tiago Nacarato porque escrevi uma música para o mesmo, que se chama Novelo. Ao ouvir o álbum completo reparei que a Luísa tem lá uma canção escrita por ela, que se chama “Pela Metade” e essa canção vem de um sítio tão vulnerável de coisas que nós pensamos e não dizemos. É sobre sentir que, se calhar, já vivemos a melhor parte da nossa vida e ser assustador quando chegamos à meia idade, que é uma coisa que eu nunca experimentei, só tenho 27 anos. Mas a canção é arrebatadora devido a essa vulnerabilidade.

 

O que podemos esperar de ti nos próximos tempos e quando poderemos ouvir o Vendavais em palco?

Nos próximos tempos vou estar a promover o meu disco e a contar as suas histórias e estou muito entusiasmada para isso. Depois vou ter uma pequena apresentação do disco ao vivo, no coreto do Nos Alive. E a partir de setembro, teremos mais datas também.

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