Vhils: “Tento revelar aquilo que o tempo e a cidade depositaram ali, como se cada gesto de destruição fosse também um gesto de revelação”

©Lauren Cowart

Desde os muros de Lisboa a cidades espalhadas pelo mundo, o trabalho de Vhils transforma o espaço urbano numa narrativa viva. Conhecido por esculpir rostos e texturas diretamente nas paredes, Vhils não cria imagens sobre a cidade: descobre-as, removendo camadas de tinta para revelar o que já estava ali, marcado pelo tempo e pelas histórias das pessoas.

O seu olhar atento à cidade e a quem a habita transforma pequenos detalhes em imagens cheias de vida, humanidade e memória coletiva. Ao mesmo tempo, o seu trabalho equilibra destruição e criação, mostrando que o que desaparece pode também revelar algo novo. Num mundo cada vez mais acelerado e cheio de distrações, a prática de Vhils lembra-nos da importância de parar, reparar e observar: porque a cidade, bem vista, é ao mesmo um museu e espelho da nossa própria experiência.

 

O teu trabalho é conhecido por transformar a destruição em criação. Como é que essa ideia se tornou a tua linguagem artística?

A ideia de transformar destruição em criação surgiu quase de forma instintiva, a partir da observação da própria cidade. Sempre me fascinou a forma como as paredes acumulam camadas de história, tinta, pó, cartazes, fissuras, e como o tempo atua sobre elas. Em vez de acrescentar mais uma camada, comecei a questionar o que aconteceria se removesse a matéria, se cavasse para revelar aquilo que já lá estava. Essa inversão do gesto – o ato de subtrair em vez de adicionar – tornou-se central para a minha prática.

Vejo-a como uma metáfora da vida nas cidades: tudo é construído e destruído em simultâneo. As forças criativas e destrutivas coexistem e alimentam-se uma da outra. Através desse processo, tento revelar o que está escondido: as memórias, as contradições, as marcas do tempo.

 

Desde o início escolheste não pintar, mas trabalhar com a própria parede. Porque é que preferes descobrir a imagem em vez de a acrescentar?

Sempre senti que a parede já contém a imagem, basta libertá-la. As paredes são como peles com memória: guardam camadas de tinta, fragmentos de cartazes, texturas que contam a história de um lugar. Trabalhar sobre elas é, de certo modo, escavar um corpo vivo.

Quando pinto ou desenho sobre uma superfície, estou a impor algo novo. Quando escavo, estou a dialogar com o que já existe. É um processo quase arqueológico, simultaneamente simbólico e físico. Tento revelar aquilo que o tempo e a cidade depositaram ali, como se cada gesto de destruição fosse também um gesto de revelação. Gosto de pensar que não crio imagens, apenas as descubro.

Ao longo da tua carreira, tens representado rostos de anónimos e de figuras conhecidas. Como é feito esse processo de escolha? O que te leva a decidir que um determinado rosto merece ganhar lugar numa parede?

A escolha de um rosto nunca é aleatória. Para mim, o retrato é uma forma de falar de identidade e de memória coletiva. Às vezes parto de pessoas que encontro no próprio local, de conversas espontâneas, de fotografias que tiro na rua; outras vezes recorro a imagens de arquivo ou a composições criadas a partir de várias referências.

Gosto de trabalhar com rostos que representam algo maior do que o indivíduo, que encarnem o espírito do lugar, da comunidade, da história. Em alguns casos, uso compósitos precisamente para evitar a personalização excessiva: são rostos que pertencem a todos e a ninguém em particular. Quando trabalho com figuras conhecidas, é sempre por um motivo ligado ao contexto e ao diálogo que quero estabelecer ali. No fundo, cada rosto é uma superfície onde projetamos o que somos e o que lembramos.

 

Achas que isso ajuda a criar uma ligação especial entre a obra e quem a observa no espaço público?

Sem dúvida. O retrato tem uma força universal: interpela-nos de forma imediata, mesmo que não saibamos quem é. Há algo de humano nesse reconhecimento. E quando a imagem surge esculpida na própria parede, essa proximidade intensifica-se: não é um objeto imposto, faz parte da paisagem.

Cria-se uma empatia silenciosa. As pessoas passam, olham, e por um instante reconhecem-se naquele olhar. É uma troca subtil, mas poderosa, a arte deixa de ser apenas contemplação e torna-se espelho, memória partilhada.

 

Tens obras espalhadas por todo o mundo: da China ao México, de Lisboa a Los Angeles. Adaptas cada intervenção ao contexto cultural onde está inserida? Que tipo de diálogo procuras estabelecer com esses lugares?

Sim, sempre. Cada cidade tem um ritmo, uma pele e uma energia próprias. Antes de começar, observo muito, caminho, fotografo e falo com as pessoas. Tento perceber o contexto social e cultural, os materiais disponíveis, o som, a luz, a textura das paredes.

A técnica pode ser a mesma, mas o espírito do lugar muda tudo. Não quero impor uma linguagem universal, quero que o trabalho funcione como tradução. Em cada sítio procuro um diálogo que respeite a sua história, mas que também traga algo novo. As obras são sempre o resultado de uma negociação entre mim e o território: entre o que trago comigo e o que o lugar me devolve.

 

A tua obra muitas vezes emerge de contextos urbanos marcados por desigualdades e contrastes. Sentes que a tua arte também é uma forma de comentário social?

A arte não é sempre um manifesto político, mas é inevitavelmente política quando ocupa o espaço público. O que me interessa é levantar questões, não dar respostas. As cidades são espelhos das sociedades que as constroem: revelam desigualdades, tensões, feridas. Trabalhar nelas é entrar nesse diálogo.

Quando esculpo um rosto numa parede degradada ou quando uso materiais descartados, estou a falar daquilo que é deixado para trás, do que é invisível. Tento dar-lhe uma nova presença. É um comentário social subtil, que nasce da matéria e da experiência, não do discurso.

Quais são as tuas principais inspirações que continuam a alimentar a tua prática?

As cidades e as pessoas que as habitam. Gosto de observar como o tempo transforma o espaço urbano, as camadas que se acumulam, os contrastes, o caos e a beleza que coexistem. Também me inspira o erro, o acaso, a textura dos materiais e a energia dos lugares.

Além disso, venho do graffiti, o que me ensinou muito sobre preparação, adaptação, risco e liberdade. Gosto de artistas que experimentam com materiais e arquitetura, são sobretudo os pequenos gestos humanos que me alimentam: uma parede descascada, uma marca deixada por alguém que passou, uma conversa breve. É nessas coisas simples que encontro sentido e matéria.

 

Há algo que procuras que as pessoas sintam ou reflitam quando se deparam com o teu trabalho?

Espero que parem por um instante. Que olhem com atenção. Se alguém conseguir ver ali um reflexo emocional de si próprio, já é suficiente.

Não quero explicar nada, mas provocar uma pausa, um desvio de olhar. Que pensem sobre o tempo, sobre o que fica e o que desaparece, sobre as histórias que vivem nas paredes à nossa volta. Se o trabalho as fizer sentir parte desse tecido invisível, então cumpriu a sua função.

 

Vivemos um tempo em que as tecnologias estão a transformar também a criação artística. Tens curiosidade em integrar novas ferramentas no teu trabalho?

Tenho curiosidade, sim, mas não as vejo como um fim em si mesmas. A tecnologia faz parte da evolução natural da criação artística, o importante é perceber quando e como faz sentido integrá-la. No meu caso, a ideia, o processo e a relação com o material continuam a ser centrais. Tudo o resto deve servir isso.

 

A Underdogs nasceu como uma extensão do teu percurso e da tua vontade de dar espaço a outros artistas. Que balanço fazes deste projeto e de como ele tem influenciado o olhar sobre a arte urbana em Portugal?

A Underdogs nasceu de uma necessidade muito concreta: criar estrutura onde não existia. Quando começámos, quase não havia espaço para esta geração de artistas que vinha da rua e queria trabalhar com seriedade e continuidade. A ideia foi construir uma plataforma que desse contexto e visibilidade.

Hoje, o balanço é muito positivo. A Underdogs ajudou a legitimar uma nova cena artística, a formar públicos, a mostrar que o que nasce na rua também pode ter profundidade, rigor e alcance internacional. Mas mais do que isso, criou pontes entre artistas, cidades e pessoas, e isso é o que mais me orgulha.

 

A arte urbana conquistou espaço institucional, mas ainda enfrenta algum preconceito. Sentes que esse estigma persiste?

Ainda existe algum preconceito, mas muito menos do que há dez ou quinze anos. Quando comecei, a arte de inspiração urbana era vista como vandalismo; hoje faz parte do tecido cultural das cidades.

Há riscos, como a perda de espontaneidade e a domesticação do gesto, mas também surgem oportunidades: profissionalização, diálogo e sustentabilidade. Enquanto houver paredes a falar e pessoas dispostas a ouvir, o estigma deixa de importar.

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