Xico Gaiato, persona artística de Francisco Barata, apresentou a 10 de setembro A Cada Passo Que Dou, o novo álbum editado pela Omnichord Records. Com origem na Beira Interior, o projeto cruza música e performance para explorar emoções, memórias e observações sobre o quotidiano, através de uma linguagem marcada pelo confronto e pela inquietação.
No novo disco, Francisco Barata recupera sonoridades ligadas à infância na região e reinventa-as a partir de uma abordagem contemporânea, cruzando eletrónica, pop e música tradicional. Grande parte do álbum foi gravada durante uma residência artística nas Donas, aldeia onde cresceu a sua mãe e onde ganharam forma alguns dos elementos sonoros que atravessam o trabalho, como os bombos e o pífaro. A Cada Passo Que Dou estabelece assim uma ligação entre tradição e contemporaneidade, transformando referências e memórias da Beira Interior numa identidade sonora própria.
Depois do lançamento do single “Na Raiz”, as apresentações do álbum começaram a 10 de setembro, no Auditório da Moagem, no Fundão. Xico Gaiato atua depois a 16 de setembro, no Teatrão, em Coimbra, a 17, na Casa da Criatividade, em São João da Madeira, e a 9 de outubro, no Maus Hábitos, no Porto.
De que forma é que o título, “A Cada Passo Que Dou”, resume o que é o álbum?
O título parte da ideia de que somos todos seres humanos em constante mudança. A cada passo encontramos novas palavras, almas, formas de ser e percebemos que, se calhar, não gostamos de coisas de que há cinco minutos gostávamos. O mote principal é mostrar que a mutação no ser humano é enriquecedora e faz parte da aprendizagem de percebermos o que é estar vivo. É sobre esta viagem e sobre a forma como, a cada momento, conseguimos adaptar-nos às novas vivências e circunstâncias da vida e do mundo.
Este álbum foi lançado pela Omnichord Records, de Leiria, que já produziu artistas como First Breath After Coma e Surma. Como surgiu a oportunidade de colaborar com esta editora?
A oportunidade surgiu numa altura em que fiquei um bocado sozinho e decidi mudar o rumo do Xico Gaiato. Eu trabalho com o Constantino, que é meu produtor, nascido e criado em Leiria, e com o meu técnico de som, o Guilherme Franco, que também é de Leiria e trabalha na Omnichord. No momento em que estava à procura de um espaço coletivo que me pudesse acolher e onde existisse entreajuda, a Omnichord foi logo a primeira opção. É uma agência que eu admiro muito, admiro todos os artistas que agenciaram e que continuam a agenciar e poder fazer parte desta família é muito gratificante e fico muito feliz.
O que sentes que mudou em ti, enquanto artista e pessoa, desde o início até ao lançamento deste projeto?
Mudou tanta coisa! Eu comecei a escrever este álbum há três anos, por isso, tem sido um processo longo e, agora que o álbum está finalizado, percebo que esta experiência de estar a lançar música traz-me novas aprendizagens, visões e perspetivas. Tem sido uma aventura. Houve muitas tentativas, muitos erros e muita coisa que deu certo.Acho que aprender a lidar com os erros e as vitórias foi a minha grande aprendizagem. Sei que agora, ao chegar ao final do processo, sou uma pessoa completamente diferente de há três anos, e é louco perceber como a música consegue fazer isto a uma pessoa.
Este álbum foi bastante inspirado nas tuas raízes da Beira interior. Como surgiu esta ideia de colocar em diálogo os sons da tua infância com a eletrónica e o pop?
Quando comecei a criar as músicas para este álbum, já havia uma componente muito tradicional da minha música, os adufos, os bombos, o pífaro, mas não fazia sentido fazer mais um álbum de música tradicional portuguesa, era fulcral juntar a eletrónica, que é uma linguagem que eu gosto muito. Fazer essa junção foi muito gratificante. A letra, a melodia, a base rítmica, grande parte do trabalho vem de mim, mas, em tudo o que envolve a eletrónica, o Constantino teve “muita mão”. Foi ele que trouxe essa ligação entre o tradicional e a eletrónica.
Como equilibras a tradição e a eletrónica sem que uma anule a outra?
Acho que conseguimos encontrar um bom equilíbrio, não ficou um álbum onde há muita música tradicional portuguesa e só um bocadinho de eletrónica, e vice-versa, conseguimos misturar as duas coisas de uma forma muito orgânica e foi um processo muito natural e fluido, conseguimos estar com os sentidos apurados e perceber o que nos dizia mais.
Houve algum som ou instrumento que te surpreendeu durante a gravação?
O que mais me surpreendeu, a nível sonoro, veio muito do lado da eletrónica. O Constantino tem um ouvido muito apurado e conseguiu surpreender-me sempre pela positiva. Houve algumas músicas em que ele pegou no pífaro e começou a distorcê-lo e a colocar eletrónica por cima. Ao longo da produção deste álbum, chegava ao estúdio e ele mostrava-me logo o que estava a pensar e aquilo que procurava. Mas, na sessão seguinte, ficava sempre de boca aberta, porque ele aparecia com novos sons que faziam todo o sentido. Ele consegue ler-me muito bem.
O disco foi gravado, em parte, durante uma residência artística nas Donas. Que impacto teve no processo de criação regressar ao lugar onde a tua mãe cresceu?
Foi muito especial poder gravar partes do álbum, principalmente os instrumentos tradicionais, nas Donas. Foi muito mágico. Foi muito mágico. Já passaram dois anos e lembro-me de ter entrado numa atmosfera muito nostálgica,porque, ainda por cima, foi num largo onde tenho a primeira memória de ouvir os bombos a tocar. Eu ficava passado, queria pegar no bombo e tocar também. Durante essa residência, criei uma das músicas que está no álbum, dedicada à minha mãe e a toda aquela atmosfera. Estar rodeado da Serra da Gardunha é sempre muito inspirador e fazer música no meio de tanta natureza e de um sítio que tem tanta história é uma sorte. Sinto-me muito privilegiado.
Disseste que este projeto procurava transformar emoções, tensões e observações sobre a vida em canções e acções performativas. Que tipo de emoções precisavas de transformar neste disco?
Este álbum representa muito a perda de nós próprios. Acontece a todos. Há sempre uma altura na vida em que nos perdemos da nossa essência e isso traz várias emoções, como a tristeza, a raiva e a desilusão, às quais tento dar corpo em palco. Mas, ao mesmo tempo, este álbum também fala sobre saber reconhecer onde é que tropeçaste e não voltar a fazê-lo. É muito à base de uma sensação de que estou a fazer o caminho de forma saudável, e de que não me estou a limitar a coisas que não fazem sentido para mim.
Dizes que a tua linguagem artística não evita o desconforto nem a estranheza. Porque é importante provocar o público?
É importante, principalmente nos tempos em que vivemos, em que as pessoas têm que abrir os olhos e saber olhar para o outro. A proposta que faço em concerto é provocar e obrigar o público a olhar, ver e escutar. Mas, ao mesmo tempo, ‘obrigar’ não é a palavra certa. Eu não obrigo ninguém, só vê quem quer. Mas acho que é importante provocar, para que o público saia dali com algo novo na cabeça, porque, nos tempos que correm, está tudo muito polarizado e o sentido crítico acaba por se perder. Hoje em dia, nós, artistas, não podemos só fazer canções sobre amor que já ouvimos em todo lado. Acho que precisamos de falar sobre coisas que são comuns a toda a gente. E, sendo jovem e sabendo que há toda uma geração que também está revoltada com o que está a acontecer, acho que a provocação é uma boa forma de tentar despertar alguma coisa em quem está do outro lado.
Por que é que escolheste a música “Na Raiz” para apresentar o disco?
Senti uma espécie de chamamento para lançar esta música por causa dos incêndios e da tempestade. É uma música com uma artista incrível, a Bia Maria. Quando fizemos a música, não pensamos muito nos incêndios e na tempestade. A música fala mais sobre a recuperação coletiva e sobre recuperarmos o sentido de comunidade para que, quando aconteçam coisas más, sejamos capazes de nos reerguer das cinzas, todos juntos, independentemente de ajudas superiores. Na tempestade Kristin foi isso que aconteceu, Leiria e toda aquela zona ergueu-se um bocado sozinha, sem o apoio de quem o deveria ter dado. Com esta música, sinto que nasce uma grande esperança para este sentido de comunidade que se criou depois desta catástrofe, que nos assustou a todos e nos mostrou que temos de estar mais unidos numa próxima vez, porque, se não estivermos, vai correr mal.
Vais apresentar o disco em Coimbra, São João da Madeira e no Porto. O que pode o público esperar destes concertos?
Eu venho de várias escolas, o meu pai é ator, diretor de uma companhia de teatro, e eu estive no teatro durante muito tempo, depois estive um bocadinho na dança e na música. O meu objetivo agora, com os concertos, é conseguir misturar estas três artes e criar algo orgânico, com uma narrativa que vá para além do álbum e uma performance mais corporal e visceral. Não gosto de chamar concertos às apresentações que vou fazer do álbum, gosto mais de chamar espetáculos. O objetivo é conseguir fazer com que as pessoas mergulhem no mundo do Xico Gaiato e depois saiam de lá com algo novo. Podem esperar coisas boas e muita dança, para podermos ser livres e coexistir todos no mesmo espaço.
O que ainda falta fazer no futuro como Xico Gaiato?
Há tanta coisa que eu quero fazer! Este álbum é só o início, é o meu primeiro trabalho enquanto artista independente. Já estou com algumas ideias para projetos futuros, mas não me quero prender ao processo que desenvolvi até agora, então espero conseguir encontrar coisas novas e diferentes, explorar novas atmosferas e novos lugares.